21 de abril de 2015

Incurável, por Celso Rennó Lima


Em seu primeiro encontro com o Outro, consequencia da incidencia de um significante, o sujeito tem de lidar com um incurável, que não se subjetiva, que não permite que desejo e percepco coincidam. Ponto de opacidade e de silencio, nos diz Lacan, que indica o lugar onde poderá se edificar a determinaco significante capaz de escrever o fenomeno sintomático, na esperanca de se “curar” a diferenca que se instala na contingencia deste primeiro encontro.

O sintoma é o sinal de que alguma coisa não anda, pois há uma dessemelhanca definida como incurável, que se coloca como uma pedra no caminho do sujeito e se explicita no fato de que homens e mulheres estão privados do elemento que poderia propiciar a escritura da relacão sexual.

o incurável que promove o sintoma como única possibilidade de fazer laco, ao mesmo tempo em que permite uma leitura, uma vez que ele participa de uma escritura, funco da letra. O sintoma é uma verdade mentirosa sobre este incurável, sobre a relaco sexual que não existe. É por isso que Lacan pode dizer que é o sintoma que nós colocamos neste lugar da impossibilidade da relaco sexual, constitui-se, talvez, no único Outro que existe.

Há, portanto, um incurável sobre o qual o sintoma se apóia e vai construir seu envelope formal. Incurável que se instala no ponto em que a presenca do singular, do recusado e recalcado pelo sujeito vai se manifestar sob a forma de um mal-estar, presenca de um excesso que não foi absorvido no processo de identificaco, como disse Freud. É este processo de busca de uma identidade entre o que se deseja e o que se encontra que foi definido como pulsão. Em outras palavras a pulsão é o que se apresenta com seu caráter incurável, rebelde e refratário ao laco social, convocando o sintoma como uma forma de inscrever, de fazer coincidir o que insiste como marcas da singularidade do sujeito e de suas fixacões.

O sintoma, assim como a cena da fantasia, nada mais é do que envelope da pulsão, modalidades de seu exercício, formas que o sujeito busca para apreender um objeto, no campo do Outro, que lhe sirva de parceiro.

Este objeto pequeno a, se define a partir dos orifícios do corpo e marcam o ponto por onde o sentido não se deixa apreender nas malhas do discurso. É o pequeno “a” que apresenta o incurável em torno do qual a pulsão faz seu circuito desenhando uma escritura que situa a repetico do sintoma.

Lacan nos diz que O Outro é uma matriz com duas entradas. O objeto pequeno “a” constitui uma destas entradas. E a outra é o Um do significante. Desfazer a presenca deste Outro é fundamental para que o sujeito possa se livrar das diretrizes que determinam a fixaco do circuito pulsional e o faz mola da repeticão sintomática.

O sintoma, por comportar um efeito de sentido, sofre a aco da interpretaco. O seu valor de gozo é antinomico ao sentido, só se deixando apreender pelo equívoco, dai se deduz a funco da letra. A reduco do sintoma à letra é uma forma de renovar o estatuto do simbólico, resumindo a pulsão à funcão de furo.

Por isso, a interpretaco do analista pode apontar o incurável e esclarecer o circuito que delimita o objeto velado pela interpretaco que o inconsciente fez do encontro traumático com o Outro sexo.

Este objeto, desde o congelamento do sentido na fantasia, passa a ser uma constante, nos dizendo de um ponto de incurável denunciado na atividade pulsional. Ora, a pulsão é sua forca real ao mesmo tempo em que denuncia o limite do sintoma à acão do simbólico. O resto que escapa, foge, retorna sob a forma de mal-estar e relanca o vetor pulsional sempre na direco determinada pelo imperativo do supereu. Desfazer este circuito, devolvendo ao objeto sua característica de ser qualquer um, mobilizando o seu valor de gozo é um dos objetivos de uma análise.

Neste seu objetivo, a estratégia da qual se utiliza a psicanálise consiste em oferecer, a quem a busca como soluco, a possibilidade de que esta cena se repita na transferencia ao instalar, no ponto de não saber, um sujeito suposto saber da significaco de seu sofrimento. Esta estratégia se utiliza do fato de que o inconsciente ex-siste e sua ex-sistencia se sustenta, exatamente no fato da inexistencia da relaco sexual e que a sexualidade só se representa no inconsciente pela pulsão.

Utilizando-se do objeto pequeno a enquanto agalma pode-se ter entrada ao Outro, fazendo possível a construção desta cena fundamental, a partir mesmo da determinaco de uma constante através da qual o sujeito se relacione ao real do gozo. Balizada por esta construco, uma interpretaco pode operar separando S1 do S2 e criar um intervalo deixando transparecer a dessemelhanca entre o que se chamou de “A Coisa” e o seu “atributo”. Este é o momento em que acontece a produco de um significante que pode indexar a falta, um nome que estabelece novos rumos, fazendo intervir a letra como borda do real.

O amor, resposta ao real da não relaco sexual, sustenta o trabalho da transferencia nesta relaco ao Outro do saber, e se esvazia pela aco da interpretaco que desfaz o mistério da diferenca sexual. Este é o momento em que se abre, para cada sujeito, uma nova relaco ao saber a partir do consentimento com seu modo próprio de gozo.

Esta passagem estabelece uma nova alianca com a pulsão. Nova alianca que só pode acontecer pela revitalizaco da marca do Nome Próprio propiciando um saber aí fazer com o sintoma, uma das fórmulas possíveis da liberdade.

Assim o incurável, o resto que persiste passa, após o trabalho que leva ao consentimento com o inconsciente, do mais-de-gozar ao estatuto de causa. Desta forma o desencontro entre esses dois investimentos, como nos diz Freud, podem se colocar numa posico de trabalho para que a “coincidencia entre ambasproduza uma nova alianca pulsional. Ou seja, uma alianca onde o resto não se apaga nem se cura, mas persiste como vivificaco do objeto-resto não mortificado pela palavra.

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