25 de octubre de 2014

O império das imagens e o gozo do corpo falante*, por Miquel Bassols

O som da água unifica as imagens, a imagem do corpo e
o corpo da imagem coincidem na unidade do espelho. 
A imagem no rio e a imagem no espelho, o espelho 
substituindo o rio, porém, continuamos como fantasmas errantes 
atrás da unidade da imagem. 
José Lezama Lima(1)


 
I 
 
O tema do próximo ENAPOL — o sétimo da série — nos submerge em cheio no vasto oceano do registro imaginário. 

O poder de penetração das imagens mostra-se, hoje, crescente em uma realidade que admitimos cada vez mais como uma realidade virtual, separada do real impossível de ser representado. É uma realidade virtual promovida, sem dúvida, por antigas e novas mídias, da televisão à internet, por meio de uma fetichização da imagem exterior do corpo, a qual podemos bem dizer que se elevou como um novo objeto no zênite do universo social. É uma realidade virtual promovida também pela multiplicação das imagens do interior do corpo, cada vez mais ampliadas com as novas tecnologias de ressonância magnética e de neuroimagem. A unidade da imagem exterior do corpo fragmenta-se, assim, a partir do interior, quando se dobra como uma luva mostrando seu avesso de corpo despedaçado. A endoscopia do corpo, que em outra época fazia parte somente do delírio ou do sonho, é hoje uma realidade ao alcance do olhar que pode se situar em qualquer parte do organismo, apagando os limites entre seu interior e seu exterior. 

II

Nós, analistas, escutamos um amplo leque de testemunhos dessa reversibilidade da imagem vinculada ao despedaçamento e à multiplicação da unidade imaginária do corpo. A primeira imagem do feto observada com perplexidade pela mulher que o carrega em seu interior; a angústia do adolescente que encontra a imagem de seu corpo difundida pelas redes sociais depois de uma primeira experiência de sexo virtual; a compulsão sintomática de outro, fazendo-a circular por essas mesmas redes; a jovem anoréxica que deve voltar todos os dias ao mesmo espelho da academia para nele buscar a única medida possível de sua compulsão em comer o nada do objeto oral que a corrói… A imagem revela, assim, seu múltiplo poder de captação do gozo do corpo, tanto no sofrimento do sintoma, quanto no prazer do fantasma. 
 
Os efeitos do poder da imagem, desse modo, se fazem sentir na clínica: causa de fascinação ou de repulsa, de prazer ou de angústia, de erotização ou de mortificação, imagem pública ou da intimidade privada, difundida massivamente como um totem ou preservada na singularidade única do fetiche, portadora da tensão agressiva até seu fracionamento, ou da unidade perdida na alienação do Eu na imagem do outro especular. Em cada caso, o império das imagens não pode se reduzir, no ser falante, aos efeitos miméticos ou de camuflagem que encontramos no reino animal e que nele funcionam de modo unívoco, sem a mediação da linguagem e seus equívocos.

A captura que a imagem produz na ordem da natureza foi muito bem estudada por Roger Caillois para distingui-la do poder que se desdobra no ser humano. Seu livro “Medusa y Cia” é uma referência lacaniana do maior interesse para esse tema. Nele, podemos ler: “No homem, a imaginação substitui o instinto; a ficção, a conduta; o terror projetado por uma obscura fantasia, o desencadeamento automático, fatal, de um reflexo implacável”(2).

A imagem condensa, assim, o imaginário da forma e a ficção da verdade veiculada pela linguagem, em uma só entidade que Lacan nomeou, no início de seu ensino, com um termo da tradição freudiana: a imago, formadora tanto das identificações como dos objetos de satisfação para a pulsão que, dessa maneira, se desfaz de sua referência ao instinto natural. Nada há de natural na relação do ser falante com a imagem na qual se reflete a opacidade de seu gozo. 

III 
 
Para o ser falante, o poder da imagem tem, prontamente e em primeiro lugar, efeitos de gozo sobre o corpo. E esse poder já não reside por inteiro na própria imagem. A imagem sempre oculta seu poder em um enigma – (enigma, em espanhol, é anagrama de imagem) –, um enigma que reside em Outro lugar, no simbólico da linguagem. Se as imagens têm um poder efetivo é, então, na medida em que estão enoveladas às significações que cada cadeia significante introduz no corpo. 

Trata-se, em cada caso, da relação da imagem corporal – i(a) – com os significantes do Ideal do Eu – I(A) –, termos que Lacan distinguiu muito cedo em seu ensino para abrir caminho à significação do narcisismo na obra freudiana. Essa distinção pode encontrar-se já, embora não formulada desta maneira, em seu famoso texto sobre o “Estádio do Espelho”, com o qual Lacan fez sua entrada na psicanálise. De fato, o poder da imagem reside em sua “eficácia simbólica”(3), na relação com os significantes que conformam, no corpo, a unidade imaginária que chamamos Eu. Daí, deduzimos uma equivalência que determina o poder da imagem: “O imaginário” – como assinalava Jacques-Alain Miller na apresentação do tema do vindouro

X Congresso da AMP – “é o corpo”(4). E o corpo, à diferença do organismo, está capturado nas redes da linguagem.

Tal como sugere a citação do poeta que apresentamos na epígrafe, é o som da língua, das ressonâncias semânticas que o significante introduz no corpo, que dá a unidade permanente da imagem especular, unidade sempre virtual. Esta unidade, fundada a partir da imagem exterior do corpo, é, desde então, corpo da imagem, imagem corporificada a partir da qual será percebida cada imagem. “Se é verdade que a percepção ofusca a estrutura”, então, toda imagem leva o sujeito a “esquecer, numa imagem intuitiva, a análise que a sustenta”(5). A intuição da imagem eclipsa, assim, a estrutura simbólica que lhe dá sua unidade, seu poder e sua significação.

No próprio seio desta unidade – i(a) – encontra-se, sem dúvida, o objeto (a) que descompleta cada um dos efeitos da imagem. Descompleta sua unidade no ponto cego que o olhar introduz no quadro da percepção, olhar a partir de então separado do corpo. Descompleta também seu poder de sugestão ao revelar a causa do desejo que o sustenta sob as insígnias do Ideal do Eu. Descompleta, finalmente, sua significação ao fazer aparecer o semsentido de toda imagem (i) separada do objeto que recobre (a). A história da arte é um bom campo de investigação das diferentes formas pelas quais o objeto se separa de sua imagem, tornando parcial sua unidade. A fascinação produzida pelo tríptico “O jardim das delícias”(6), de Hyeronimus Bosch, evocada por Lacan em diversas ocasiões, representa o ápice desse semsentido na variedade de objetos separados da unidade imaginária do corpo. 

IV 
 
Se a ciência, de sua parte, impele à parcialização omnivoyeuse do corpo, a arte, que desde a época clássica modelou sua imagem exterior com o gozo de sua sacralização, introduziu também, desde o século passado, o avesso despedaçado da imagem do corpo com a abstração de sua unidade. 

O estreito vínculo dessa operação de reversibilidade da experiência de gozo do corpo conheceu um episódio recente no Musée d’Orsay, episódio mais paradigmático do que escandaloso, com a performance de uma jovem artista expondo ao visitante a intimidade de seu sexo diante do famoso quadro de Gustave Courbet, A origem do mundo. Segundo suas próprias palavras, a obra batizada de Espelho da origem “não reflete o sexo, mas o olho do sexo, o buraco negro” para “mostrar o que não se vê no quadro original”(7). Mostrar o que não se vê, mostrar o próprio olhar como o objeto que só aparece como ponto cego da representação, é hoje a operação que se revela no mais íntimo, e, ao mesmo tempo, no mais exterior do império das imagens. 

V 
 
“Uma imagem vale mais do que mil palavras”. Costuma-se dizer esta frase esquecendo-se, ao dizê-la, que são necessárias pelo menos estas oito palavras para evocar uma significação que nenhuma imagem poderia mostrar por si mesma, caso esta imagem pudesse alguma vez ficar desligada da linguagem. Nem mil imagens valeriam então para dizer dessa significação, e, tampouco, para dizer de qualquer outra. Falando propriamente, uma imagem não diz nada; oculta, ao contrário, o indizível que só a palavra pode evocar ou invocar.

O vasto oceano do registro imaginário, com toda a consistência que adquire para o ser falante em sua realidade virtual, mostra-se, então, delimitado unicamente pelo horizonte, não menos virtual, que é o registro simbólico da linguagem: “o horizonte desabitado do ser”(8), como Lacan gostou de chamá-lo.

Uma imagem isolada desse horizonte, isolada da rede simbólica que a vincula ao próprio corpo, não tem de fato nenhum poder de significação. Este poder de significação foi formalizado por Lacan em seu primeiro ensino com o símbolo e a significação do falo, significante do desejo do Outro, significante também que enlaça a significação em uma cadeia significante.

A partir deste ponto, o poder da imagem é sempre correlativo à construção nele de um espaço simbólico que irradia seu poder de significação. O espaço do sujeito da fobia – claustrofobia ou agorafobia, espaço fixado em um objeto impossível de ser evitado ou disseminado em sua multiplicação ao infinito – muitas vezes nos ensina que deve esse espaço ao sinal enviado pelo desejo do Outro ao sujeito. Por outro lado, o espaço inabitável da criança autista também nos ensina a função e o poder de uma imagem desligada por completo da unidade de seu corpo, unidade que não pode simbolizar-se como ausente para o Outro.

O império das imagens revela-se, então, como aquele outro “império dos semblantes” que Lacan encontrou nos anos de 1970 em um Japão que antecipava sua ampliação em escala global.(9)

Nosso VII ENAPOL será, sem dúvida, a melhor ocasião para se estudar tanto as leis que o regem, quanto o real sem lei no qual se funda.
 
Tradução do espanhol: Maria do Carmo Dias Batista 
 
Notas:
 
1-. José Lezama Lima, “El reino de la imagen”, Biblioteca Ayacucho, Caracas, 1981, p. 535.O poder da imagem como Gestalt unificadora revela, assim, seu avesso em um despedaçamento do corpo tão virtual quanto minucioso.

2-. Roger Caillois, “Medusa & Cia. Pintura, camuflaje, disfraz y fascinación en la naturaleza y el hombre”. Ed. Seix Barral, Barcelona, 1962.

3-. Jacques Lacan, Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 1998, p. 98. Lacan retoma aqui o termo de Claude Lévi- Strauss.

4-. Jacques-Alain Miller, “O inconsciente e o corpo falante”, publicado no site da AMP em português: www.wapol.org. Acesso em 26/07/2014.

5-. Jacques-Alain Miller, retomando a referência de Lacan, na nota introdutória do “Quadro comentado das representações gráficas”. In:Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 1998, p. 918.

6-. Bosch, Hyeronimus, “O jardim das delícias terrenas”, 1503-1504, óleo sobre carvalho, 2,20 m x 3,90 m, Museu do Prado, Madri [N.T.].

7-. Declarações de Deborah de Robertis ao jornal “Le Monde” de 29 de maio de 2014.

8-. Jacques Lacan, Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 1998, p. 648.

9-. Jacques Lacan, “Lituraterra”. In: Outros Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 2003, p. 24.

*ENAPOL VII - Boletim Flash nº0.

24 de octubre de 2014

Como se passam as altas de pacientes que não se tornam analistas e não são orientados para o passe?, por Margarida Elia Assad.

Foi essa a questão que recebi dos colegas que coordenam a rubrica EBP-Debates, Frederico Feu e Paula Borsoi, a quem agradeço a 'provocação ao trabalho'*. Ao ler a questão colocada por eles fui remetida, de imediato, ao Lacan do final do Seminário 7 sobre a Ética da Psicanálise. 

Abordar a alta na experiência analítica me direciona a algo tremendamente ético. Até onde vai uma análise, e o que se faz com uma experiência tão radical para um sujeito? Se a procura por uma análise parte de uma demanda por extinguir um sofrimento em busca da felicidade, o que podemos dizer da forma como termina essa experiência? Seria diferente para quem se torna um analista e para aqueles que demandam o passe? O que nos ensina o manejo com o inconsciente é que a ética do desejo não se orienta pelo serviço dos bens, ou seja, pelo que se alcança de bens de família, bens de ofício ou privados. 

O analista não promove esse acesso aos bens sem que o sujeito tenha se confrontado com sua condição de ser falante, para utilizar um termo recentemente resgatado por Miller. Lacan nos fala "da dimensão trágica da experiência analítica". A demanda pela felicidade, tão almejada pelos que se dirigem a um analista, está atravessada pela satisfação das tendências humanas, sejam elas de qualquer natureza, as mais comuns da condição humana. 

E, desde Freud, sabemos que a solução para o impossível da adequação do objeto à pulsão ocorre pelo mecanismo da sublimação. Sublimar, ensina a Psicanálise, é encontrar uma satisfação da tendência através da mudança de sua finalidade. Isso requer dar um novo destino ao saber do analista. Penso que muitas altas são obtidas quando a pulsão pode se dirigir a novos contornos do objeto. Essa travessia oferece ao sujeito um apaziguamento de seu sofrimento, uma vez que lhe foi possível obter um efeito de satisfação das pulsões provocado pelo esvaziamento da crença na garantia do Outro.

Estaria a questão da satisfação do desejo resolvida aí? Acredito que a experiência com o inconsciente leva também àqueles que demandam tornarem-se analistas, um pouco além dessa satisfação. Há alguma coisa na relação do objeto com a satisfação que vai além desse encontro. Trata-se de uma dimensão ética – ao mesmo tempo trágica e cômica - que traz uma interrogação ao analista e que diz respeito ao sentido da ação. É uma dimensão comumente ocupada pela religião e pelas propostas filosóficas, que necessariamente apontam para um segundo plano da condição humana: Deus! Essa dimensão é do ponto de vista analítico habitada pela experiência com a morte. "A vida tem algo a ver com a morte?", interroga-se Lacan. 

Esse 'epos' trágico próprio a invasão da morte na vida, faz do analista aquele que não espera a ajuda de ninguém diante da desolação – a hilflosigkeit  freudiana – de encontrar-se com seu ser-para-morte. Nem todo aquele que atravessa a experiência com um analista deseja ir até esse limite, onde seu gozo se desliga do sentido e da verdade. Muitas análises se findam pela experiência sublimatória, ou como disse certa vez Lacan, quando o sujeito se sente felizz. 

*Boletim Informativo Nº 348. 11  de outubro 2014. Textur@ando

22 de octubre de 2014

Eva-Lilith. Boletín de las VIII Jornadas de la NEL. Viviana Berger, Edwin Jijena, Orlando Mejía, Alicia Arenas, Luz Elena Gaviria, Liliana Bosia, Gladys Martínez.



Boletín Eva-Lilith. (Selección 31, 32, 33, 34, 35, 36 y 37) 

Dos preguntas a la NEL-México DF*

Eva-Lilith.: ¿Cómo se ha venido preparando la NEL-México para el encuentro que tendremos en las Jornadas?

Viviana Berger.: Se propusieron diversas actividades desde los espacios de trabajo que se sostienen regularmente en la vida de la sede, a los fines de instalar localmente el tema de las Jornadas y propiciar la investigación sobre los ejes que se diseñaron. En principio, se organizó un ciclo de cine en el que se proyectaron varias películas, para luego invitar a una discusión sobre Lo femenino a partir de los films. También, programamos una serie de Conferencias hacia las Jornadas de la NEL, en las que un miembro y dos asociados, cada vez, presentaban una ponencia bajo la modalidad de Mesas Redondas, compartiendo y enriqueciendo el estado de trabajo que cada uno viene realizando. Finalmente, trabajamos el tema con mayor profundidad en el marco de un seminario – "Bord (e) ando lo femenino" - con la última invitada internacional que hemos recibido en la Sede, Anna Aromí.

Eva-Lilith.: ¿Qué expectativas epistémicas y clínicas pueden vislumbrarse del tema que nos convoca?

Viviana Berger.: Se generó un nivel de expectativa muy alta, que podemos leer en la fuerte iniciativa que se hizo presente en miembros, asociados, alumnos y allegados de la sede, no sólo para trabajar cuestiones teóricas en relación al tema de las Jornadas sino también para escribir y presentar contribuciones para la Jornada Clínica. El número de inscriptos fue aumentando progresivamente y se espera que, a pesar de la cercanía de la fecha, algunos más también se vayan a sumar. Se presiente que será un evento que nadie se quiere perder. 

Notas:
* Responde Viviana Berger, Directora de la NEL-México DF



Dos preguntas a NEL-Tarija*

Eva-Lilith.: ¿Cómo se ha venido preparando la NEL-Tarija para el encuentro que tendremos en las Jornadas?

Edwin Jijena.: La Delegación de la NEL Tarija, está efectuando un Coloquio abierto sobre la Feminización del Mundo, convocando a asociados y simpatizantes de la Escuela, dicha actividad que se realiza cada 10 días y está a cargo de dos miembros de la Escuela: Ricardo Torrejón y Edwin Jijena. La mencionada actividad continuará hasta el mes de Diciembre y se la realiza en el centro cultural de la Plaza del Cabildo. 

La NEL Tarija, ha participado y organizado conjuntamente con las delegaciones de la NEL en Bolivia, La Paz, Cochabamba y Santa Cruz, en el Coloquio Nacional sobre la Feminización realizado en la ciudad de La Paz y animado por el colega Sergio Laia. La representación de Tarija animó la discusión clínica con la presentación de dos recortes clínicos de Ricardo Torrrejón y Edwin Jijena.

Eva-Lilith.: ¿Qué expectativas epistémicas y clínicas pueden vislumbrarse del tema que nos convoca?

Edwin Jijena.: En la actualidad estamos confrontados con un nuevo real, la feminización del mundo, expresión que tiene valor de interpretación y que tiene distintos modos de ser abordado. La decadencia del viejo orden y del discurso del amo, en palabras de J.-A. Miller, el viejo orden simbólico esta comido por las polillas y ya no empuja, pone en evidencia la sociedad actual construida en base al "amor líquido", según la expresión de Bauman.

La clínica es el espacio dónde ya emergen los ecos de la feminización del mundo, posiciones subjetivas que develan la ausencia de identificaciones al S1, manifestaciones sintomáticas sin ese anclaje, que develan el ser del goce del sujeto, por ejemplo sostenido en función a la frustración, el estrago o el capricho, válido para ambos seres parlantes, nos alejan del discurso del amo y de las clásicas estructuras clínicas. 

Estos temas están generando gran expectativa en los miembros, asociados y adherentes de la Delegación de Tarija y se extenderá hasta diciembre, momento en el que concluye el Coloquio que se planificó sobre la Feminización del mundo.

Notas:
* Responde Edwin Jijena, Director de la Delegación NEL-Tarija



Dos preguntas a la NEL-Bogotá*

Eva-Lilith.: ¿Cómo se ha venido preparando la NEL-Bogotá para el encuentro que tendremos en las Jornadas?

Orlando Mejía.: Respondiendo a Eva-Lilith desde la NEL-Bogotá, en un breve resumen del trabajo de miembros y asociados, destaco: El Seminario de formación lacaniana 2014 orientado por el tema de las Jornadas, "Hombres, mujeres, cuerpos, los efectos de un análisis sobre el goce". Anudado a este se realizaron mesas de lectura del Seminario XX, Aun. En el marco de Noches preparatorias a las Jornadas se trabajó:Sobre el argumento. Comentarios sobre la entrevista a Leonardo Gorostiza "Lo femenino y la feminización del mundo". Comentarios sobre el texto de Silvia Salman "Encuentros con lo femenino". Seminario Lo femenino. Discusión de los casos seleccionados.

Eva-Lilith.: ¿Qué expectativas epistémicas y clínicas pueden vislumbrarse del tema que nos convoca?

Orlando Mejía.: Las expectativas son tan particulares que han movilizado de manera decidida la participación presencial en las Jornadas como un relanzamiento del trabajo por venir. Ya nos encontraremos en Lima!

Notas:
* Responde Orlando Mejía Director NEL-Bogotá.


Posición femenina, por Alicia Arenas
 
Cuando Lacan establece el lado femenino de las formulas de la sexuación en la lógica del no todo, dice que se trata de una parte del goce femenino que no está regulado por el falo y que del mismo modo, un hombre que se sitúe en esa en posición no será menos viril.

Al mismo tiempo, la ausencia del límite fálico podría llevar al sujeto a una dimensión en la que se presente un goce que apunta al infinito, como sucede en la psicosis. Sin embargo, habría una diferencia entre goce femenino y posición femenina, pues no se trata aquí de infinitud, sino de algo del orden de lo innumerable, en tanto las leyes del significante no están en juego, porque falta el significante de La Mujer.

Con la pregunta ¿Qué es una mujer? la histérica intenta simbolizar el órgano femenino desde una posición de identificación masculina a modo de aproximarse a algo que se le escapa y que le es imposible nombrar.

Ese lugar imposible, es el que Lacan da al analista, no sin señalarle el uso del semblante. Sócrates en el Banquete está en posición de analista en relación a Alcibíades, tanto porque este lo sitúa en posición de amado, objetivándolo, como porque hace uso de ese mismo semblante para señalarle el lugar que Agathon ocupa para él. La posición del analista se inspira en la de una mujer que se sitúa entre centro y ausencia, de tal modo que el goce femenino se torne en posición femenina.


Dos preguntas a la NEL - Medellín*

Eva-Lilith.: ¿Cómo se ha venido preparando la NEL-Medellín para el encuentro que tendremos en las Jornadas?

Luz Elena Gaviria.: En la Sede de la NEL-Medellín se realizaron diferentes actividades hacia las Jornadas de la Escuela, retomando de manera puntual su tema. En el primer semestre se realizó un curso introductorio que se convocó con un nombre similar al de las Jornadas. Convocó numeroso público en torno al trabajo que desarrollaron los Miembros de la Sede, que desarrollaron las diferentes clases a partir de facetas que estuvieran trabajando en torno al tema de lo femenino. Con el material de este curso se publicó un libro que estará disponible para la venta en la Librería de las Jornadas. La Biblioteca de la Sede programó la proyección y discusión de la película "Diario de un escándalo", que se trabajó en la vertiente del goce femenino. Se realizaron las Jornadas de la Sede y se invitó a Marcela Almanza, de la NEL-México, para trabajar un seminario sobre "Lo femenino en las estructuras clínicas" (Neurosis y psicosis) Marcela Almanza dictó también una conferencia pública con el tema: "La otra cara del amor... ¿femenino?"

Eva-Lilith.: ¿Qué expectativas epistémicas y clínicas pueden vislumbrarse del tema que nos convoca?

Luz Elena Gaviria.: Con respecto a las expectativas epistémicas y clínicas: El trabajo de preparación ha causado a los Miembros y Asociados a la profundización y el estudio sobre este tema, permitiendo ubicar algunas de las encrucijadas y dificultades que el mismo plantea tanto en lo teórico como en lo clínico. En la perspectiva de la formación del analista, su incidencia en el análisis, resaltando la importancia del encuentro con el goce femenino más allá del falo... En estas perspectivas, esperamos compartir en las Jornadas un trabajo que contribuya al bordear algo sobre lo femenino en la clínica, en el final de análisis y en los impases de la cultura.

Notas:
* Responde Luz Elena Gaviria - Directora de la NEL-Medellín


Dos preguntas a la APEL Santa Cruz*

Eva-Lilith.: ¿Cómo se ha venido preparando la APEL – Santa Cruz para el encuentro que tendremos en las Jornadas?

Liliana Bosia.: Motivadas por un trabajo entusiasmado y sostenido, las miembros de APEL - SC, hemos organizado la mayoría de las actividades de la gestión 2014 alrededor del eje de lo femenino.

1) Para ello hemos elegido y trabajado en intensión como texto de fondo y guía epistémica el Seminario XX de Lacan, "Aún". Y a la luz de este texto que se han armado los casos clínicos para nuestra actividad de discusión de casos.

2) Se ha comenzado el Cartel: "Lo femenino no es sólo asunto del psicoanálisis. Psicoanálisis y Literatura: La función de lo Escrito", partiendo de la novela Las Camaleonas, de la autora Cruceña Giovana Rivero, entendiendo a este género literario como una ficción que permite un tratamiento de lo real por lo tanto del goce femenino, que puede escribir una mujer a cerca de este real, de este otro goce suplementario. (Más Uno: María Elena Lora, Cartelizantes: Liliana Bosia, Claudia Bowles, Fabiana Chirino y Alejandra Hornos)

3) Se ha comenzado el Cartel. "La Familia Hoy", donde se trabajan los efectos de la feminización del mundo en la época actual, en la función de la transmisión de un deseo no anónimo al sujeto, en la transmisión de un modo de goce y en la función de suplencia de la familia frente a la no-relación sexual. (Más Uno: Mónica Pelliza, Cartelizantes: Fabiana Chirino, Teresita Díaz Maggie Jáuregui)

4) Participación en el grupo, coordinado por Jimena Contreras, de investigación: El Superyó de la época, ¿es femenino? Realizando trabajos investigativos con otros colegas de la NEL en permanentes reuniones virtuales que permitieron discutir el tema, profundizar conceptos, debatir diferentes posiciones para lograr un documento final que será presentado en las Jornadas. (Participantes de APEL: Fabiana Chirino y Maggie Jáuregui).

5) En la actividad abierta y pública de Psicoanálisis y Ciudad se han escogido textos y artículos publicados virtualmente de colegas de las diferentes Escuelas que abordan tanto la temática de la Feminización del mundo como la Feminización vs. Femineidad.

6) La transmisión del psicoanálisis realizada en el Hospital San Benito Meni a los residentes de Psiquiatría verso en el goce femenino en tanto ese otro goce suplementario.

7) Con motivo la participación en el Coloquio de la NEL Bolivia se han leído y discutidos varios textos Freudianos referentes al tema y otros de Miller, a saber el capítulo: el campo pulsional. In: "El Otro que no existe y sus comités de éticas" y el capítulo "Capricho y voluntad", In: "Los usos del lapso". También se ha presentado una viñeta clínica en la discusión de casos de dicho Coloquio. (Anne, una mujer moderna, por Liliana Bosia).

Eva-Lilith.: ¿Qué expectativas epistémicas y clínicas pueden vislumbrarse del tema que nos convoca?

Liliana Bosia.: El tema de las VIII Jornadas de la NEL ha creado expectativas no solo epistémicas, centradas en el trabajo de la lectura, profundización y discusión de los conceptos al interior de APEL S-C, sino también en la posibilidad de la discusión de los mismos con los colegas de las diferentes Sedes y Delegaciones en la clínica a presentarse en las Jornadas.

Seguras de que las VIII Jornadas de la NEL serán un encuentro enriquecedor y productivo, las miembros de APEL –SC nos despedimos con un cálido: ¡Hasta Lima!

Notas:
*Responde Liliana Bosia - Coordinadora de la Asociación Psicoanalítica de Estudios Lacanianos - Santa Cruz APEL – SC (Bolivia)


Dos preguntas a la NEL - Cali*

Eva-Lilith.: ¿Cómo se ha venido preparando la NEL – Cali para el encuentro que tendremos en las Jornadas?

Gladys Martínez.: Desde el Directorio de la NEL Cali tomamos la apuesta de hacer convergir la mayoría de nuestras actividades hacia la preparación de las Jornadas de la NEL. Para ello diseñamos un programa de estudio que se realizó por espacio de 9 meses bajo 3 nombres: "Lo femenino: fuera del estándar", "Lo femenino y el amor" y "La desmesura en lo femenino". Dentro del programa nos propusimos estudiar la bibliografía sugerida por el comité científico de las jornadas, complementado con la discusión de casos clínicos publicados y con un ciclo de películas cuidadosamente escogidas para seguir a los artistas en lo que tan finamente logran cernir y dar a ver frente a lo indecible que conmociona un cuerpo.

Este estudio sostenido, que contó con una asistencia regular, atenta y participativa, impulsó fuertemente, para los integrantes de la sede, el deseo de hacerse presente en las Jornadas de la NEL no solo con el movimiento hacia el encuentro de ellas, sino con la elaboración de trabajos clínicos y teóricos. Es un gran gusto constatar el significativo número de personas que viajaremos a las Jornadas causados por el lugar tan fundamental que tiene esta temática en nuestra clínica y en la vida.

Además de las actividades internas mencionadas, es importante destacar el trabajo entusiasta que realizaron con nosotros colegas de otras sedes colombianas de la NEL. El superyó: ¿una máscara del goce femenino? y La experiencia de lo femenino: un cuerpo Otro, fueron seminarios que enriquecieron la carta de navegación de nuestra travesía interna, donde nos fue transmitido, con gracia y alegría, otros tejidos, bordeamientos y anclajes, frente al agujero en el saber. Finalmente desde el programa de estudio sobre Las Psicosis, tuvimos la oportunidad de verificar en vivo, al sujeto psicótico frente al S(A) en las presentaciones de enfermos y en los casos clínicos que hacen parte del programa de trabajo. Hincarle el diente, por primera vez, a La Tercera, fue también hacer de un ofrecimiento una buena oportunidad para, de manera orientada y dilucidada, consentir a la incomodidad que suscita la dificultad del texto. Acercamiento importante que conmovió cierta inercia frente lo duro de roer del rigor teórico pero que se hace preciso e inaplazable, para nuestra formación.

Eva-Lilith.: ¿Qué expectativas epistémicas y clínicas pueden vislumbrarse del tema que nos convoca?

Gladys Martínez.: En pocos días estaremos en Lima. Hay una expectancia alegre y activa. Despejar en algún punto lo oscuro, encontrar algunas salidas frente a los meollos del saber. Dejarse enseñar. Habitar el intervalo cuando se es tan fiel a la pasión de que no los haya. Despertar. Verificaremos lo que puede sucedernos cuando sabemos abrirnos a la contingencia. Saldremos enriquecidos a nivel epistémico, clínico, institucional. Causados, estrechando lazos y fundamentalmente con-movidos por acontecimientos de Escuela.

Notas:
* Responde Gladys Martínez Directora de la NEL Cali
 
 
Comisión Editorial Boletín Eva-Lilith
  • Raquel Cors Ulloa
  • María Hortensia Cárdenas
  • José Fernando Velásquez

21 de octubre de 2014

Crónica: Los poderes de la palabra*. Andrés Borderías, por Miguel Ángel Alonso



Andrés Borderías, miembro de la ELP y de la AMP, fue el encargado de dictar la segunda conferencia del ciclo ¿Qué es el psicoanálisis Lacaniano? 

Comenzó su disertación estableciendo el lugar privilegiado de la palabra, en tanto revela su potencia para curar, enfermar, marcar un destino, etc., tal como se observa en la clínica de las diferentes estructuras clínicas. Es la palabra articulada al deseo, al goce, a la enunciación, es decir, al modo particular en que es acogida por cada sujeto. 

Cuestión central para el discurso psicoanalítico, pues en su concepción de la estructura subjetiva y del síntoma, establece la articulación de esa palabra -sustentadora del orden simbólico- con el cuerpo y la subjetividad. Premisas que sirvieron para que el conferenciante desplegara la posición de Sigmund Freud en relación al poder de esa palabra, un aspecto, sin duda, problemático. Pues en contraposición a la conducta normalizadora de otros estamentos clínicos en relación a la palabra y al sujeto que la sostiene, identificándose con el lugar del saber acerca del sufrimiento subjetivo, Sigmund Freud consideró que existía una “causalidad y una determinación inconsciente del síntoma”, de tal manera que quien ostentaba el saber era el propio paciente. Es decir, el mismo paciente debía de responsabilizarse de elucidar y descifrar su propio padecimiento para posibilitar un nuevo destino subjetivo. Ese sería el modo en que el sujeto puede encontrar, con la ayuda de la interpretación, una articulación nueva con la palabra, “respetuosa con su propia verdad” como sujeto hablante.

Para sustentar estas hipótesis, Borderías desarrolló uno de los casos más conocidos de la clínica freudiana, el de Isabel de R. Relató los síntomas histéricos que aquejaban a la paciente, destacando, precisamente, la posición de Freud frente al relato de la paciente, preocupándose por que ella recordase la “impresión psíquica a que se anudó la génesis primera” de los síntomas corporales, exhortándole a que comunicase todo lo que se le ocurriera al respecto. De esta manera estaba poniendo en juego la “causa ausente”, “un saber no sabido”. Vemos el uso que hace Freud del poder de la palabra, responsabilizando a la analizante del encuentro con la causa a través del despliegue de la asociación libre y abriendo la dimensión inconsciente.

Mostró en este desarrollo la estructura verbal del síntoma, las traducciones significantes del mismo, las metáforas como símbolos de sus pensamientos dolorosos, es decir, particularidades del recorrido clínico que permitieron el alivio del dolor por el ejercicio de la palabra.

La investigación freudiana fue más allá de lo que proponían estos primeros casos, pues además de la cuestión del sentido descubierto en el desciframiento del síntoma, Freud descubrió que “el síntoma tiene como función operar como una manera particular de defensa ante lo real, el goce del cuerpo, la muerte y la castración”. En palabras de Andrés Borderías, el análisis del sujeto no va a transcurrir en la búsqueda de sentido a través de una conversación entre dos personas, “sino como la experiencia de elucidación de la significación coagulada para un sujeto en sus síntomas. Por eso el analista se retira de la escena, dejando al sujeto sin un interlocutor que le despiste de esa dimensión velada, su vínculo y determinación por el Otro que le corresponde”.

Se relativizó, entonces, el poder de la palabra, dado que los síntomas escondían el fantasma del sujeto y su núcleo libidinal, pulsional. Estructura que implica que el síntoma no sea tan fácil de dilucidar, sino que insiste y repite alojándose en el escenario de la transferencia, lugar donde se establece una tensión entre el saber y el goce, cuestión que el analista ha de saber manejar para facilitar al analizante un cambio de su destino localizando el goce opaco del síntoma.

Se repasaron luego estas cuestiones a la luz de la enseñanza de Jacques Lacan, su etapa estructuralista mostrando la lógica del síntoma a partir de los aportes de la lingüística moderna, etapa en la que el inconsciente estaba estructurado como un lenguaje. Quedaron apuntadas diferentes modalidades de interpretación, la puntuación de la cadena significante, el corte del relato, la alusión, la cita, el equívoco, etc. Pero como oposición a la cuestión estructuralista, Borderías resaltó también la dimensión no dialéctica de la palabra, el “gocesentido que penetra el cuerpo”, señalando, de esta manera, lo real en lo simbólico. El poder de la palabra, entonces, radicaría más en el goce que alcanza el cuerpo del parlêtre, de todo lo cual expuso un ejemplo clínico para ilustrar la cuestión.

* CICLO DE CONFERENCIAS: INTRODUCCIÓN A LA ORIENTACIÓN LACANIANA (Nucep-Madrid 2014). ¿QUÉ ES EL PSICOANÁLISIS LACANIANO?

20 de octubre de 2014

LACAN COTIDIANO, par Jean-Charles Troadec, Hervé Castanet.

Big BigData
A revista da imprensa dos EUA.  
«Sintoma Unido», por Jean-Charles Troadec 

Os sintomas da civilização devem primeiro ser decifrados nos Estados Unidos da América". Éric Laurent et Jacques-Alain Miller, O Outro que não existe e seus comitês de ética

Em 09 de abril último, The New England Journal of Medicine reportou que os Centros de Cuidados Médicos e Serviços (CMS), instituição que agrega mais de 100 milhões de pessoas sob sua cobertura de saúde, liberaram o acesso a seus dados médicos relativos ao pagamento e à utilização do sistema americano de atendimento a mais de 800.000 praticantes. O objetivo é informar sobre o uso da organização de tratamento pelos pacientes e médicos a fim de otimizar as despesas.(1)

Se esta novidade é uma première, já que uma lei de 1979 interditava qualquer  divulgação de ordem médica, ela não ficará como uma anedota. A transparência na troca de dados da saúde está em todos os discursos. Barack Obama pediu uma regulamentação sobre a interatividade dos dados informáticos em cada estado da federação, desejando, assim, uma maior colaboração dos poderes públicos a fim de antecipar sobre o que se anuncia como uma revolução. É assim que, em 1 de setembro de 2014, o Instituto Nacional de Saúde  acaba de mudar suas leis em matéria de troca de dados. De agora em diante, qualquer registro clínico será postado na Web com a intenção de poder ser transmitido.(2) 

No entanto, um paradoxo subsiste.  Ao mesmo tempo a revista Nature revelava que apenas a metade dos estudos clínicos médicos e testes medicamentosos dos laboratórios é publicada nas revistas especializadas. A outra metade fica, por sua vez, estocada no site clinicaltrials.gov/  (Testes Clínicos), de acordo com a lei, mas sob a forma de dados brutos, sem interpretação nem crítica à diferença das versões publicadas. Além do mais, nas revistas, os testes clínicos que comparam a eficácia de uma molécula a um placebo, geralmente, só são difundidos quando eles mostram resultados positivos.(3) 

Qual interpretação dar a esse desejo de comunicação de dados médicos? 

E-medicina

A medicina tornou-se inseparável da Internet. O New York Times de 10 de junho de 2014 (4) nos informa que um médico americano passa mais tempo atrás de um PC a inserir os dados pedidos pelas administrações de saúde e a nutrir o dossiê médico de seus pacientes que à mesa de exame. O paciente é um doente, mas também portador de um grande número de dados que atualmente dormem nos servidores. 

A psiquiatria se coloca nesse nicho. O Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, lançou um experimento abrindo aos seus pacientes os relatórios das sessões de psis, disponíveis no computador e no smartphone. O ministério americano dedicado aos veteranos de guerra tem experimentado este novo serviço desde o ano passado e começa a estudar os efeitos de uma  revolução como essa na relação médico-paciente.

Pode-se comparar este movimento de liberação com aquele da «medicina pessoal» ou «personalizada» (personal medicine) que se desenvolve além do Atlântico frente ao fracasso da Evidence Based Medicine (EBM) concernente aos transtornos mentais. Não se dá mais acesso aos resultados de pesquisas padronizadas a fim de que vocês se conformem às provas, dá-se a vocês acesso aos seus resultados personalizados. Não se compara mais vocês a um grupo de controle, centra-se unicamente nos seus dados, que se quer compartilhar.

Medicina Personalizada vs Medicina Baseada em Evidências

 

Leroy Hood, presidente do Instituto de Biologia de Sistemas de Seatle, lançou em março último uma vasta operação de medicina personalizada com o que ele chama de «a medicina P4»: preditiva, preventiva, personalizada e participativa. Uma centena de indivíduos saudáveis distribuídos no território americano serão controlados de perto e aconselhados posteriormente sobre seus hábitos alimentares e de sono, etc. O estudo viola um grande número de regras da EBM: sem duplo-cego, nem randomização dos dados, nem grupo-controle. É uma medicina que tem por objetivo não esperar pela doença, e por consequência pelos medicamentos que a acompanham(6). Isso vai trazer problemas para os laboratórios e a psiquiatria. 

A psiquiatria americana, na verdade, foca-se apenas no sintoma mórbido e na molécula medicamentosa a que ele responde. Como vai dar a volta neste contexto de declínio da EBM e da abertura à medicina personalizada?

A psiquiatria, menos dinâmica,  já há muito tempo busca debruçar-se sobre a genética a fim de propor uma abordagem mais rigorosa e personalizada. As iniciativas, tanto privadas quanto públicas, se multiplicam nesta direção. Neste verão a revista Nature publicava os resultados sobre a localização de genes da esquizofrenia, considerados como uma première: 108 genes estariam ligados à esta doença, «mais do que jamais se encontrou até agora».

Thomas Insel, atual diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental, cumprimentou a publicação deste artigo: «Este é um momento particularmente palpitante para a história desse segmento».(7) Essa abordagem permite à psiquiatria americana se situar na esfera de influência atual sobre o genoma e a Big Data.




World Wide Genoma 

No ano passado, de fato, a revista Nature,  assinalava que um consórcio de sessenta e nove instituições em treze países estava pronto para compartilhar gratuitamente as informações que detinha sobre o genoma de seus pacientes. Esta aliança toma por modelo o consórcio World Wide Web de 1990 que tinha por missão estabelecer padrões universais de programação das páginas na rede. É um verdadeiro desafio, porque, como o lembra Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde, não há padrões de estocagem de dados genéticos, também não para a avaliação de sua exatidão.(8) É o problema que encontra igualmente o Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Doenças Mentais (DSM).

Mas, frente à magnitude do sucesso da troca dos dados, o homem vai ser capaz de sintetizá-los?

Watson 


A medicina se volta à máquina, não mais como ferramenta para-clínica, mas como sistema de interpretação. A IBM acaba de elaborar Watson, um supercomputador cognitivo capaz de aprender. Ele pode relacionar as informações, verificar sua exatidão, produzir um raciocínio graças... ao compartilhamento de dados. Ele parece com Samantha, a voz de exploração do sistema do filme Her, capaz de criar uma personalidade quase humana, recolhendo no enorme saco de dados que todo internauta produz a cada dia sobre si mesmo (redes sociais, correspondências, etc.) Watson se gaba de poder verificar as informações que ele estoca e de poder, assim, dar um resposta sempre exata. É aqui que ele interessa à medicina. «O desenvolvedor Biovídeo» (San Antonio, Texas) propõe transformar Watson num especialista neonatal e de bebês, expondo-o a diversas fontes de dados – revistas médicas, relatórios da Academia americana de pediatria...»(9). Ele poderá igualmente ajudar os médicos a encontrarem o melhor tratamento para um paciente atingido por um câncer, cruzando um grande número de parâmetros biológicos e genéticos  na linha da medicina personalizada.
Como o campo psi aí se introduzirá? 

O campo psi envolvido 

A empresa Azoft deseja desenvolver um avatar inteligente capaz de aconselhar os utilizadores de smartphones com base nas obras de Freud e Einstein. Ela vai inserir no Watson o conjunto de textos dos dois autores, 

 

assim como sua célebre correspondência para responder às questões ontológicas dos usuários. Em suma, uma espécie de retorno a Freud.

É um programa sedutor para a psiquiatria. Quando um App (aplicativo de software) para ajudar os psiquiatras modernos a se encontrarem na terminologia sempre em movimento e em superprodução do DSM e pela  qual a genética não é nenhum socorro? Quando um outro para sintetizar esse mais-de-informação?

Mas como Watson se viraria com a língua de Lacan?

Notas:
1Brennan N. ,Conway P., Tavenner M., « The Medicare Physician-Data Release — Context and Rationale », The New England Journal of Medecine, July 10, 2014.
2. Van Noorden R., « US agency updates rules on sharing genomic data », Nature, Sept 1st, 2014, disponible sur internet : http://www.nature.com/news/us-agency-updates-rules-on-sharing-genomic-data-1.15800
3. Jones N., « Half of US clinical trials go unpublished Results are reported more thoroughly in government database than in journals », Nature, Dec 3, 2013, disponible sur internet : http://www.nature.com/news/half-of-us-clinical-trials-go-unpublished-1.14286
4. Ofri D., « The Physical Exam as Refuge », The New York Times, July 10, 2014, disponible sur internet : http://well.blogs.nytimes.com/author/danielle-ofri-md/
5. Hoffman J., « What the therapist thinks about you », The New York Times, July 7, 2014, disponible sur internet :http://well.blogs.nytimes.com/2014/07/07/what-the-therapist-thinks-about-you/?_php=true&_type=blogs&_r=0
6. Gibbs, W., W., « Medicine gets up close and personal », Nature, February 11, 2014, disponible sur internet : http://www.nature.com/news/medicine-gets-up-close-and-personal-1.14702
7. Reardon S., « Gene-hunt gain for mental health », Nature, July 22, 2014, disponible sur internet : http://www.nature.com/news/gene-hunt-gain-for-mental-health-1.15602
8. Hayden E., « Geneticists push for global data-sharing ». Nature, June 5, 2013, disponible sur internet : http://www.nature.com/news/geneticists-push-for-global-data-sharing-1.13133
9. Marks P., « Watson l'omniscience dans la poche », The New Scientist, April 28, 2014, trad. de Jean-Clément Nau, Les dossiers de la Recherche, août-sept 2014.



Entrevista com Jorge León (II) por Hervé Castanet,
Marseille

A primeira parte dessa entrevista encontra-se no Lacan Cotidiano 421. Acrescentemos que, depois de Before we go, do qual se trata aqui, Jorge León, hoje, está engajado num novo filme a partir das trocas de emails entre Mitra Kadivar e Jacques-Alain Miller. O filme será uma interpretação lírica e cantada dessa troca: os emails trocados tornar-se-ão libreto de ópera. H.C.

Hervé Castanet: Os personagens – aqueles do lugar de cuidados - se encontram pela primeira vez no mesmo espaço, mas há o silêncio... 

Jorge León: Há o vazio, há a música... 

H. C.: Você concordaria em dizer que, no fundo, você preservou o enigma ao invés de fazer disso um segredo, de mantê-lo como o mais íntimo de cada um, aqui onde não se tem que colocar nossos gordos dedos gordurosos...? Uma delicadeza da sua parte. 

J. L.: O que você formula me parece mais justo, até porque esta cena do filme é precisamente a sequência destes momentos de conversa, quando, num momento, literalmente se diz: «Vamos tomar um ar!». Ou seja, mesmo temporariamente; estamos nesta lógica. 

H. C.: Em certos momentos sobrevive a questão, não a da sedução mas dos corpos que se tocam, não sem erotismo. Entre o personagem de Noël, o dandy e Simone, a dançarina vestida de esqueleto, alguma coisa pode passar da presença do desejo sem, no entanto, que ele se manifeste. Da mesma forma quando as duas mulheres se encontram sobre a esteira e se abraçam, além da ternura, e sem falar de um desejo sexual, aparece esta dimensão que, quando os corpos se encontram, não é neutra. 

J. L.: Não somente não é neutra, mas aqui você evoca os casais, e se entramos um pouco mais no interior desses casais, nos damos conta de que são sempre casais atípicos. Há duas mulheres com um beijo muito desconcertante no momento do encontro, que eu não direcionei absolutamente: em momento algum tinha imaginado que isso viria e, entretanto, isso colore a relação do casal. Diante de Noël, Simone, que desempenha o papel da morte, está consciente de sua dimensão andrógina que deixa pairar uma dúvida antes que ela se desnude. E o terceiro casal são dois homens. Claramente, parecia-me importante poder brincar com a plasticidade desses casais: não há um só que entra na formação de um casal, eu diria... estereotipado.

H. C.: Ainda assim, você não fez a assepsia dos corpos a ponto de anular o desejo...

J. L.: Não, absolutamente ; ao contrário, eu penso que o desejo circula à sua maneira, que é extremamente tênue. Para mim, realmente, havia o desejo de jamais forçar as interpretações. Desde que  as configurações me pareciam evidentes demais, legíveis demais, isso me parecia menos interessante ; permanece-se na fronteira, na borda / orla dos gêneros, entre os corpos e na forma mesma do filme : É teatro ? É dança ? É cinema ? Estamos na ficção ? No documentário ? 

H. C.: A experiência analítica nos demonstra que o desejo nos abre à uma definição muito mais ampla do sexual do que se pode crer.  Quando se criticava Freud sobre uma  espécie de pansexualismo de sua doutrina, ele insistia dizendo : minha definição do desejo é mais o Eros platônico, não simplesmente no sentido etéreo, mas não o reduza ao sentido sexual banal como se ouve. Seu filme faz ouvir, sem esta dimensão sexual do sentido banal do termo, a dimensão do desejo. Estes corpos  estragados, estes corpos que sofrem, estes corpos com as sondas – que você não hesita em mostrar, mas sem insistir -, eles são afrontados desde o encontro nesta dimensão do corpo vivo, sempre vivo, e portanto desejante. 

J. L. É essencial esta dimensão da vida mobilizada assim. Nestes momentos de fragilidade de sofrimento físico, eu tenho a impressão que a vida está bem mais presente ainda que dentro de qualquer ser. Permanecer na vida mobiliza tanta energia : pra mim, de uma certa maneira, o desejo está aqui, ele está no sopro ; ele está na expressão de si, nas coisas extremamente finas, alguma coisa que, de repente, emerge e vai embora. Vai embora e também encontra seu caminho. Um caminho singular : não é alguma coisa que pode ser petrificada ou imediatamente cernida. Eu não queira cernir estas pessoas ; eu queria mais acolher alguma coisa delas, estar aqui com... servir de relé. 

H. C.: Ao contrário do realismo médico, de uma frieza distanciada onde o corpo se reduz à operações puramente orgânicas, você preserva sobre estes corpos frágeis - e não somente frágeis subjetivamente : a dificuldade de andar, o câncer da língua, etc -, uma dimensão do vivo: o que não pode se colocar numa divisória nem se reduzir à uma instrumentação dos corpos. No final de seu ensinamento, Lacan diz: «Não se sabe o que é um corpo, um corpo vivo, se apenas é aquele que se goza». Mas ele não diz o que é, no fundo, esse ponto mais íntimo onde, apesar de tudo, resiste-se ainda. Resiste-se ainda e é isso... você não sabe o que os faz resistir. A personagem mulher lhe diz durante a projeção do filme: o presente mais bonito presente que você nos deu, é que você  me tornou bonita. Ela é bonita porque, no fundo, você lhe deu dignidade. 

J. L.: Sim! Ela não disse nada além de, «tu me tornaste bonita», mas, «Eu me acho bonita». Acho isso até mais bonito, isso que é a relação que ela mantém com a imagem. Quer dizer, ela me exclui disso. De maneira nenhuma negativa, mas «em relação a isso que eu vejo, eu acho muito bonito». Ela não está, com respeito a mim, na sedução, ela está frente à imagem, e eu acho isso muito forte...

H. C.: Você evitou os lugares mais prestigiosos no interior do teatro La Monnaie para filmar dentro dos ateliês, lugares que permitem o espetáculo mas que não fazem parte do espetáculo.

J. L.: ... Realmente, há esta dimensão da periferia, ficar na periferia. Um pouco também esta dimensão da sombra que a gente dinamiza. Estes espaços um pouco escondidos mas ao mesmo tempo muito habitados – pela força da criação do que se desenrola aí no cotidiano. E de uma carga emocional extremamente forte e por isso, com efeito, eu não queria cair na fascinação desses espaços grandiosos que, de repente, nos cegariam. 

H. C.: Ou que esmagariam, se for o caso, os personagens. 

J. L.: Esta dimensão do trabalho é importante para mim; pareceu-me que era aqui também que as coisas podem ainda se tornar uma coisa em evolução.  Esses espaços estão aqui para isso, para que uma forma surja; para que, de repente, o silicone se torne um busto ou um rosto ou um olhar, para que um pedaço de madeira se transforme em muro... É aqui onde os tecidos são pintados ; há esse plano muito grande onde se vê um tecido estirado e substituído por um outro. Para mim foi realmente: «Eis aqui, agora um outro espaço se desenrola, mesmo se é em duas dimensões». 

H. C.: Em outras palavras, quase os fundos da boutique, os lugares um pouco escondidos onde se elabora e constrói a ficção ? 

J. L.:  É isso, aqui está. E a gente se inventa... e fracassa, às vezes, e se recupera, e se ajusta.

H. C.: Por que o Édipo de Pasolini, no momento em que ele furou os olhos? 

J. L.: (riso) É verdade que se começa com Lacan e se termina com Pasolini e particularmente com Édipo. Pasolini foi muito claro com relação à influência de sua leitura de Freud, no momento no qual realizou Édipo. Ele diz que certamente é o filme mais autobiográfico que realizou. Logo, é um pequeno piscar de olhos; e porque Édipo é esse personagem trágico que eu tinha  vontade de reintroduzir na ópera. Num certo momento, hesitei com Medeia, onde fiquei muito impressionado ao descobrir o filme, de ver o quanto La Callas está silenciosa! Ela apenas fala; ela interpreta o papel de Medeia mas... Que força? Esse é o seu gênio... 

H. C.: No final de Édipo, no texto clássico, assim que furou seus olhos ele diz basicamente: «É o momento em que eu não sou mais nada, é ali que eu me torno realmente homem». Ao forçar o traço, poder-se-ia dizer que é no momento no qual seus corpos soltam seus personagens de maneira radical que você tenta mostrar o que há de mais singular na sua presença no mundo, como homem ou mulher, no desejo, no corpo vivo – um momento formatado que você chama fragilidade mas que é o mais íntimo de cada um.

J. L.: O ator Pasolini disse esta frase muito linda : «Eis que a vida acaba aqui onde ela começou». E a câmera parte das árvores, então, que se supõe ser, para ele, seu ponto de vista, agora que ele está cego; estamos confrontados com esta natureza e termina-se no sol, no capim. É a razão de ser desta sequência de Pasolini...além do fato que eu tinha vontade – é um herói artístico, para mim -, eu tinha vontade de convidá-lo para esta experiência do filme.

Transcrição realizada por Françoise Biasotto e Patrick Roux, em 10 de julho de 2014