25 de enero de 2015

LACAN COTIDIANO. Nathalie Georges-Lambrichs, Yves Depelsenaire, Solenne Albert.


 
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A propósito de Littérature et politique 
de Philippe Sollers

(Des)atualidade ardente,
 a crônica de Nathalie Georges-Lambrichs




 « O Verbo faz o homem », assim definia Voltaire, ao concluir La Guerre du goût, há já vinte anos.

« Precisarei que me ocupar em melhorar o estilo, pela aversão que provoco. Preciso fazer de tudo agora », escreve ele em seu Jornal de L'Année du tigre, na data de 13 de novembro (1998).

2001. Em Éloge de l'infini, seguido de La Guerre du goût, que se dirige aos « músicos da vida », « políticos suspeitos », entre outros, se abster. 

O sollersisme, hoje, é então uma paixão por eclipses, a vida obriga!, e a LPA (leitura feita por outro ) que pratica seu inventor, confere, em intervalos autorizados o charme potente das conversações de Paradis : « pega e lê » (Éloge de l'infini, p. 366), « como você viu, você lê » (Ibid., p. 367), « para saber escrever, disse uma vez Debord, é preciso ter lido, e para saber viver é preciso saber ler » (Ibid.).

« Que belo livro não se comporia contando a vida e as aventuras de uma palavra ? », se pergunta Louis Lambert (Ibid., p. 368). A aventura que fez Sollers ferrar essa palavra, hoje tem nome : « política ». Ele nos convida a ficar em volta do caldeirão onde ele a mantém cativa, e derrama com precaução sobre ela uma suspeita de literatura, sob o olhar transubstancial do mago François le Bordelais. Miracolo! Evviva e gioia! As palavras se sobrepõem, se agarram, descolam, se atraem, se encolhem sob a prensa que, dessa vez, visa a página Um, que condensará em sua unicidade o excesso que é para ler, tão pouco, para marcar melhor e ainda e, o que quer que aconteça, contra ventos e marés, e apesar de tudo.

As entradas, numerosas, envolvem a cada vez um nome, que é mais frequentemente próprio que comum. É em todo caso regrado como um balé. As reminiscências dessa tetralogia (Após La Guerre du goût e Éloge de l'infini, tivemos Discours parfait depois Fugues), dessa soma mais-Uma são recenseadas e referenciadas numa mesa provida de um índice, cuja exaustão reforça o mistério : a anatomia de nossa animalidade está ali, dissecada e exposta, partes extra partes, oh, tão mais numerosas que o « todo » supõem contê-las, em plena luz , à flor da cultura: cada sinapse desse córtex do homo lector1 convida à viagem e lembra que « é preciso escutar o espaço respirar » (Ahmad Jamal, Discours parfait, p. 512), e murmurar as cem mil vozes dos personagens live, desse dejeto de comédia humana. Entre eles Lacan está ali, provocando com sua «poubellication» (p. 616), mas fica um fulgor (p. 299). Miller também, Jacques-Alain, saudado por seu Neveu de Lacan e pela edição do Seminário. Cada nome, uma carta. Leitor demiurgo, ele só tem você para prolongar a vida de todos esses avatares. 

Analisar em Pequim ? A ideia o tenta, mas esse fumante inveterado (não pode faltar a esse respeito as páginas hilariantes sobre a moral de Frêche, que sempre me lembram a fórmula deliciosa de Gérard Wacjman recusando o cigarro que eu lhe oferecia, me assegurando que ele fumava sempre, « interiormente ») « recua diante da poluição » (p. 548). É uma surpresa. A via permanece aberta àquelas e àqueles que esse mal contemporâneo não para.

A política então não é outra, senão o pleno exercício dessa responsabilidade : ler, reler. É dizer se ela é mais que tudo, e Sollers o sabe demais – o porquê dele precisar reinventar e difundir sem cessar os meios para renovar e prolongar esse milagre. 

Se a leitura é o exercício mais espiritual é porque ela é aberta, convidativa, crivada de anfractuosidades, de impactos antigos onde se encostar com os livros e apresar-se a si mesmo na missão de enriquecer a matéria dos dias que ameaçam a todos com a morna ilegibilidade, com o saber estéril sobre a ignomínia ordinária.

« A linguagem deve ser requentada » (p. 452). 

Que Sollers não cesse de escrever isso que, se escreve de uma vez por todas, não pode, é sua grandeza, tanto como seu pudor, sua audácia e o cuidado que ele toma com sua melancolia, e com a nossa, na medida do possível. 

« Requentagem », diz ele. É o 14 de Julho, estamos com Jacques Chirac para uma entrevista-relâmpago. Tudo vai melhor nos Champs-Élysées, o ar está maníaco-requintado, perguntemos de novo, em dose homeopática, pois é um tratamento de fundo, vocês sabem, o que menos falta. Já que é preciso fazer tudo, eu lhe digo.

No fim da primeira noite de seus Études lacaniennes na ECF, em 25 de novembro último, Éric Laurent nos prometia um desenvolvimento sobre a leitura por Husserl da sexta Meditação de Descartes. Um mundo, dizia ele, que ele tinha que nos apresentar sem o trair nem lhe dar todo o lugar. 

Escolher, diz ele.

Não-todo Sollers, então. Sollers, esse especialista excepcional em não-todo.


Philippe Sollers, Littérature et politique, Paris, Flammarion, 2014, 812 pages.

1Lector is Latin for one who reads, whether aloud or not. In modern languages it takes various forms, as either a development or a loan, such as French : lecteur, English: lector, Polish : lektor and Russian : лектор. It has various specialized uses. (Wiki).










Le Studio de l'inutilité de Simon Leys
Mas enfim !, a crônica belga de Yves Depelsenaire


No decorrer do ano que termina, a Bélgica perdeu um de seus maiores espíritos na pessoa do sinólogo Pierre Ryckmans, aliás Simon Leys, pseudônimo inspirado em René Leys de Victor Segalen.

Pierre Ryckmans é notoriamente o tradutor das admiráveis Propos sur la peinture de Shi Tao1 – o monge Citrouille Amère (Abóbora Amarga) –, do qual Lacan se maravilhava em 1970, em seu Seminário « A lógica da fantasia ».

Mas, é sob o pseudônimo de Simon Leys que ele alcançará a notoriedade, um ano mais tarde, com a publicação de Habits neufs du Président Mao2. Essa implacável requisição contra a empresa maoísta lhe vale então ser arrastado para a lama pelos adoradores da Revolução Cultural, Philippe Sollers encabeça. Somente um agente da CIA podia ter algum interesse em manchar a imagem do Grande Timoneiro. Mais tarde, Sollers concordará com sua cegueira e reconhecerá em Simon Leys um escritor lúcido de primeira ordem. Inabalável, Alain Badiou por sua parte, persiste em não ver em Simon Leys « a vanguarda [...] do espírito renegado [Tiens, tiens !] e contrarevolucionario »3. Saborearemos a réplica irônica de S. Leys num texto dedicado ao genocídio cambojano, retomado em Le Studio de l'inutilité4.

Nomeado professor da Universidade de Camberra, em 1975, P. Ryckmans se estabelece definitivamente na Austrália, longe dessas querelas. Ele conserva, no entanto, laços com a Bélgica. Nomeado Doutor Honoris Causa da Universidade de Louvain (com a proposta de nossa colega da ECF Ginette Michaux), ele era também membro da Academia Real de língua e literatura francesa da Bélgica. Ele se demite daí em 2013, como forma de protesto contra a sorte lamentável reservada a seus dois filhos, privados da nacionalidade belga em 2007, em consequência de um erro administrativo do Consulado de Sydney – seis anos não tinham sido suficientes para os serviços dos Assuntos Estrangeiros restabelecer seus direitos. 
 
Àqueles que não tiveram a felicidade de descobrir este autor, posso recomendar a leitura de sua coletânea de ensaios, última obra publicada em vida, que se intitula belamente Le Studio de l'inutilité. Este nome é o da modesta cabana que dividia P. Ryckmans, numa favela de Hong Kong entre 1967 e 1969, com um calígrafo taiwanês e dois outros estudantes. Ele guarda uma lembrança deslumbrada dessa estadia em que « o estudo e a vida eram uma só empresa, de um interesse inesgotável, meus amigos tornando-se mestres e meus mestres se tornando meus amigos ». Não é à toa que P. Ryckmans imagina, com o Cardinal Newman, a Universidade de seus sonhos, como o texto pelo qual se conclui o livro prova. Pela fidelidade a essa concepção, ele abandonará suas funções em Camberra no dia em que um reitor o fará ver, acima de tudo, em seus alunos, clientes.
Le Studio de l'inutilité testemunha a maravilha da variedade de interesses desse espírito curioso e sem concessão : a China, claro, mas também os escritores e o mar,  Magellan, le Prince de Ligne, Chesterton, Conrad, Nabokov, Milosz e Henri Michaux. Para esta crônica belga, eu evocaria apenas o primeiro texto da coletânea, dedicado a esse último. 

« Os artistas que se contentam em desenvolver seus dons não chegam finalmente a grande coisa, escreve Simon Leys. Aqueles que deixam verdadeiramente um traço, são os que têm a força e a coragem de explorar e de aproveitar suas carências. Desde o começo, Michaux teve essa intuição : "Nasci furado", e ele soube tirar partido disso com genialidade. "Tenho sete ou oito sentidos. Um deles: o da falta (…) Têm doenças que se as curarmos não resta nada ao homem." Também tem-se que tomar sempre cuidado : "Sempre manter uma reserva de inadaptação ". Mas, sobre esse capítulo, de nascença, ele estava bem equipado. Pois, para começar, Michaux era belga. »

A dita « belgitude » não é nada mais que essa consciência difusa de uma falta – que é, de saída, a falta de uma língua. No uso do francês, observa S. Leys, os belgas são « atormentados de incertezas ». É o que os diferencia de seus vizinhos franceses. « Para um francês, a arrogância é uma suspeita da qual eles precisam se proteger constantemente. No estrangeiro, no meio de indígenas deserdados, o francês é frequentemente levado, de bom ou mau grado, a ostentar sua identidade nacional como uma espécie de santo sacramento, que ele trata de não desonrar » – não somente no estrangeiro, de fato ! A contrario, o belga tem medo da pretensão, sobretudo da pretensão das palavras ditas ou escritas. É o que Michaux observava muito bem em um de seus primeiros textos : « O segredo é o seguinte : o belga acredita que as palavras são pretensiosas. Ele as empasta e as abafa o quanto pode, mesmo que elas tenham se tornado inofensivas, boa criança. Falar deve ser, pensa ele, como abrir sua carteira, escondendo as notas de mil » ! 

Dessa dificuldade, S. Leys mostra como Michaux fez uma alavanca. Ele a gira numa luta sem piedade contra a linguagem. Suas viagens, reais ou imaginárias, são a metáfora disso. « "Ele viaja contra. Para expulsar de si sua pátria, seus ataques de toda espécie, e o que, nele e apesar dele, está ligado à cultura grega ou romana ou germânica, ou hábitos belgas. Viagens de expatriação". [...] "Viagens para te empobrecer. É disso que você precisa." » Michaux se estabelece em Paris. Ele foge para esse « país  triste e superpovoado… um campo argiloso que patina sob os pés, terra para sapo… não vazia […] Um campo de pequenas montanhas de excursionistas; filas intermináveis sobem, descem, em zigue-zague, em espiral ; formigas, formigas desse país trabalhador, trabalhador entre todos… » 

Pois, se existe uma coisa da qual o belga está impregnado, observa com exatidão S. Leys, é de sua insignificância. Contudo, há um paradoxo : « isto, ao contrário, lhe dá uma liberdade incomparável – um saudável irreverência, uma tranquila impertinência, beirando a inconsciência. […] O belga é uma espécie de bobo da corte: como o que ele diz não poderia ter consequência, ele pode dizer tudo. Espontaneamente, é assim que Michaux se vê a si mesmo na primeira metade de sua existência ».  Abaixo toda língua conveniente !

Mas, eis então que Michaux, coitado, vai se tornar francês ! Não que ele vá se naturalizar. Ele se torna francês no sentido de, pouco a pouco, vigiar sua linguagem. Assim, quando vem para ele a consagração, sob a forma da edição de suas obras na Biblioteca da Pléiade, ele se põe a revisar e corrigir vários de seus antigos textos. Redescobrindo, por exemplo, Un barbare en Asie, ele se sente envergonhado, constrangido, se arrepende por ter falado mal dos japoneses ou dos hindus. O resultado é desastroso, como se pode mesurar em diversos exemplos que S. Leys detalha. 

Tal giro escatológico é censurado, as garras desaparecem, tal insolência cruel é substituída por uma lenitiva fórmula passe-partout. Ele edulcora, ele se desculpa. O poeta se converteu ao uso do sabão ! Como se Michaux tivesse esquecido esse belo princípio : « Sempre manter uma reserva de inadaptação »5.

 Notas:
1 Shi Tao, Propos sur la peinture du moine Citrouille Amère, Bruxelles, Institut belge des Hautes Etudes chinoises, 1970 & Les propos sur la peinture du Moine Citrouille-Amère, trad. Pierre Ryckmans, Paris, Plon, 2007.
2 Simon Leys, Les Habits neufs du Président Mao, Paris, Champ Libre, 1971.
3 Badiou A., Le Siècle, Paris, Seuil, 2005.
4 Simon Leys, Le Studio de l'inutilité, Paris, Flammarion, 2012, rééd. poche 2014.
5 Michaux H., Poteaux d'angle, Paris, Gallimard, 1981, rééd. 2004.



O que do encontro se escreve de Pierre Naveau, por Solenne Albert


« Em psicanálise, não tem solução imediata, mas somente a longa e paciente busca das razões. »1  Parece-me que essa fala de Lacan ressoa com o que trata, com uma grande justeza, o livro de Pierre Naveau2, a saber, o amor, o encontro amoroso, o desejo, o gozo. O que dá ao encontro seu caráter determinante? O que separa uma mulher de um homem ? Que dissimetria se encontra no coração daquilo que falha ou daquilo que liga ? No prefácio desse livro, Éric Laurent indica que não se trata, no que separa, de uma diferença anatômica, mas « de uma separação dos modos de gozo. E é do não-encontro desses dois modos que se queixam homens e mulheres na experiência analítica ». Essa disjunção marca uma impossibilidade, que Lacan reduziu assim : Não há relação sexual. « O avesso dessa impossibilidade, desse « não há », é que há relações contingentes, não necessárias entre os homens e as mulheres. »3

É a busca dos segredos desses encontros que palpita nesse livro, « segredos que repousam sobre o real do inconsciente »4. Há uma lógica nisso, e é a sequência dessa lógica, através das modificações conceituais de Lacan, no decorrer de seu ensino, que segue precisamente P. Naveau. Do conceito de repetição, enquadrado pelos de tuché e de automaton, no Seminário XI, àquele de gozo no Seminário XX, o ponto vivo concerne à « articulação entre o saber e o encontro »5. « Todo amor se sustenta numa certa relação entre dois saberes inconscientes. »6 Quando do encontro, alguma coisa de « imprevisível e inesperada » se produz, que pode tomar ares de traumatismo, pois não se sabe o que se passa. « O acontecimento do encontro coloca em jogo a relação com a língua que se fala e o modo de dizer que é singular a cada um. »7 De repente, descobre-se uma maneira inédita de falar. Pois, para que um encontro tenha lugar, « há alguma coisa a dizer ». « Não ocorreu a Lacan sustentar que não há acontecimento senão de um dizer ? O que se diz torna-se realmente decisivo. Basta uma palavra para que o desejo se acuse. » Essa confrontação com o dizer é também uma confrontação com o desejo do Outro.

« A clínica mostra que o encontro abala a posição do ser, « perturba a defesa ». E também o que é central no coração da relação analítica. O analista se torna parceiro, endereço de lalangue, em uma palavra, mas para mudar o analisante. E « a condição para que se mantenha o « nó » do encontro com o outro é querer saber alguma coisa dele. »8 No início desse livro, descobrimos os impasses que uma mulher pode encontrar,  quando ela é histérica, no encontro com um parceiro : recusa da castração do Outro, idealização do pai, rejeição de seu gozo, gozo com sua própria falta, querela do falo. « O Neid é o signo de uma recusa, a recusa precisamente desse ponto de negatividade ao qual ela está confrontada na sua relação ao Outro. »9 « Em seu seminário sobre Hamlet, Lacan ressalta o fato de que o que está em questão, no momento em que a filha deixa seu pai, é um luto – luto do falo. » Ele não lhe dá nada, mesmo que a ame. « Donde, a consequência que ela tira disso : amamos e, no entanto, abandonamos. »10 E a escolha que ela faz : posição viril, recusa de seu próprio feminino.

Através de casos clínicos e de numerosas referências à literatura, são as dificuldades para amar e a recusa em ser desejada que estão articuladas nos sintomas : anorexia, bulimia, angústia, etc. Para Célia, por exemplo, « a crise de bulimia é uma maneira brutal de colocar uma mordaça. […] Comer demais é uma maneira de apagar o fogo que queima em seu corpo, uma maneira de sufocar essa desordem interior que é a excitação »11.

Em sua leitura do caso de Dora, P. Naveau ressalta que o que faz obstáculo ao encontro, para Dora, concerne ao « horror ao gozo sexual ». Ela goza da caixa vazia12. Há uma gozo com a privação, tipicamente feminino, que faz obstáculo ao encontro. O que se deduz disso é uma paixão pelo sexo feminino. O verdadeiro objeto de Dora é a Outra mulher, enquanto esta encarna um saber sobre o feminino. Logo, o amor se endereça ao saber. E a transferência está orientada para a mulher. A mulher não é ela, assim ela não tem que estar, ela mesma, na posição de objeto de desejo do Outro nem se interrogar sobre o que ela acredita saber.

« O problema que se coloca então é o que está ligado à articulação entre o horror do gozo sexual e o horror de saber. »13 A questão que caracteriza a ligação entre a sexualidade e o saber é uma maneira « de colocar o problema da relação entre o significante e o gozo »14. « O significante queima do real do gozo. ». Esse gozo, a mulher o experimenta, mas ela não sabe nada dele. « Logo, o importante é isto : ela sabe e ela não sabe – é um dito contraditório. »15

Do lado do homem, a dificuldade toma a forma de uma dificuldade para se decidir. Ele supõe que o Outro sabe o que ele quer. Ele fica prisioneiro de sua questão, que é a do « risco da castração, que ele ousa ou não confrontar »16. « O que ela quer de mim? » é a questão angustiante que ele encontra. Para se virar com essa angústia, ele responde com um cenário fantasmático. É por isso que, desde o instante em que ela se torna a causa de seu desejo, ele faz da mulher « a prisioneira de seu fantasma». À questão « O que quer uma mulher? », ele responde « ela quer gozar de mim, ela quer minha castração ». « Para o homem, observa Lacan, a realização do desejo somente é alcançada a preço da castração. Ele deduz daí que, uma vez que a mulher quer gozar do homem, é seu ser que ela quer. »17 De fato, « a angústia do homem está ligada à possibilidade de não poder »18. Desse ponto de vista então, o homem é angustiado, enquanto a mulher é mais livre. 

« O verdadeiro parceiro do homem é, assim, a castração, enquanto que o da mulher é o que constitui, no Outro, o desejo. »19 É por isso que o que uma mulher ama num homem pode bem ser sua coragem, a coragem que ele mostra em enfrentar a singularidade de seu gozo feminino.

Esse livro ensina também que, em todo caso, o encontro supõe consentir em passá-lo pela fala – e portanto pela castração, a sua, inicialmente, assim como a do Outro. « O encontro com o parceiro é, ao mesmo tempo, o encontro com seus sintomas, quer dizer, com suas dificuldades em dizer, e seus afetos, seus embaraços, suas angústias, suas alegrias e suas tristezas. »


É então que o dizer particular encontra o corpo ? « Os acontecimentos de corpo são acontecimentos de discurso ». A esse respeito,  Jacques-Alain Miller ressalta a « incidência da língua sobre o corpo do ser falante »20. É por isso que Lacan fala do traumatismo da língua. Uma palavra pode então ter o efeito de um tapa. E, quanto mais se ama, mais a palavra do Outro vale ouro, e mais ela pode, portanto, também machucar. O acontecimento de corpo se produz « relativamente ao instante em que alguma coisa se diz ou não se diz. » É nesse instante que se produz uma ruptura no saber. « Em se tratando do amor, Lacan insiste, portanto a questão mais importante é relativa ao saber. » Um encontro que conta é um encontro que produz a emergência de um saber novo, articulado a um dizer. 

Lendo esse livro, descobrimos também muitas coisas sobre o ciúme feminino, sobre a ética do encontro, sobre o obsessivo e a dívida, sobre o corte do sexo, sobre a devastação... 

Corram!  

Notas:  

1« 1974. Jacques Lacan. Entretien au magazine Panorama », La Cause du Désir n°88, ECF-Navarin, novembre 2014, p. 166.
2 Naveau P., Ce qui de la rencontre s'écrit. Études lacaniennes, Paris, Éd. Michèle, 2014.
3 Ibid., « Préface » d'Éric Laurent, p.12.
4 Ibid., « Préface » d'Éric Laurent, p.13.
5 Ibid., p.16.
6 Mot de Lacan, p.131 du Séminaire XX, cité par P. Naveau, p.17.
7 p.16.
8 p.19.
9 p. 32.
10 p.34.
11 p.60.
12 Cf. Lacan J., Le Séminaire, livre XVII, L'envers de la psychanalyse, p.109 : « c'est la boîte, l'enveloppe du précieux organe, voilà ce dont elle jouit » ]
13 p. 69.
14 p.72.
15 p.97.
16 p.114.
17 p.145.
18 p.146.
19 p.146    
20 p.15