10 de noviembre de 2015

RESSONÂNCIAS DO VII ENAPOL, por Paula Legey, Miguel Antunes e Isabel do Rêgo Barros Duarte.


Por Paula Legey 

Nessa edição do EBP Acontece escolhemos um formato um pouco diferente em consonância com a magnitude do acontecimento que vamos destacar. Isabel do Rêgo Barros Duarte, do Rio de Janeiro e Miguel Antunes, de Minas Gerais, nos contam sobre sua experiência no VII ENAPOL. As duas resenhas fazem recortes bem diferentes do encontro e nos trazem de volta alguns fragmentos e momentos-chave para revivermos um pouco do que se passou nos dias 4, 5 e 6 de setembro em São Paulo, e com isso relançar nosso trabalho. Vale muito a leitura!


Por Miguel Antunes 

O VII Enapol aconteceu nos dias 04, 05 e 06 de setembro, na cidade de São Paulo no complexo hoteleiro World Trade Center.

Chegando ao local do evento foi possível ter ideia da dimensão do que encontraríamos no VII Enapol, um império de imagens, com seus prédios e arquiteturas imponentes. Ao iniciar o credenciamento e logo em seguida à mesa de abertura, que contou com a presença de autoridades, como a Primeira-Dama de São Paulo e analistas ligados à organização do VII Enapol, o auditório ia se enchendo e as cadeiras já não eram mais suficientes: mais de mil participantes de todas as Américas toparam o convite e se reuniram dispostos a fazer avançar a política da psicanálise.


Como não podia ser diferente, o VII Enapol foi ao estilo paulista: NON STOP! A cada mudança de mesa não haviam intervalos, mas sim, um jogo de imagens nos telões do auditório enquanto a mesa seguinte ia se formando. O ritmo NON STOP do VII Enapol era contraposto com a redução de velocidade e o esvaziamento da cidade de São Paulo devido ao feriado de 7 de setembro. Sorte de nós visitantes, que pudemos passear um pouco mais por essa cidade tão singular. 

No segundo dia do evento, 15 conversações tomaram conta das salas durante toda a manhã e 240 trabalhos foram selecionados para as mesas simultâneas. Além das 4 Plenárias, os participantes do VII Enapol puderam assistir aos testemunhos de 12 AE’s e como cada um foi tocado, em sua experiência, por uma imagem indelével. 

Iniciando o terceiro dia de trabalho, o auditório se encontrava lotado para ouvirmos a Conferência de Miquel Bassols “O corpo, o visível e o invisível”, na qual se trabalhou não apenas o tema do Enapol, mas também o do X Congresso da AMP, que acontecerá em abril do próximo ano. Nesta Conferência, Bassols parte do “Império das Imagens” para chegar ao “Corpo Falante”, fazendo um importante percurso. Situa que a primeira imagem, que se encontra no fantasma da criança, está no registro do invisível, por se tratar do falo materno, e é esta ausência que dá lugar a um brilho fálico, cujo “brilho no nariz”, recorte da ilustração freudiana, é o maior exemplo. A partir de um caso de uma criança atendida por um colega da NEL, Bassols chega à passagem da imagem do corpo até o corpo falante, marcado pela substância gozante. 

Como não podia deixar de ser, no Império das Imagens, inúmeras foram as fotos tiradas pelos participantes do VII Enapol e postadas nas redes sociais de modo “on line”. O VII Enapol com suas páginas no Instagram e Facebook também não deixaram a desejar, toda mesa mereceu seu registro marcando o evento, não só pela excelente organização de todas as comissões, mas com as imagens que ficarão registradas “na rede”.

Outros dois momentos importantes foram o lançamento da Revista Digital Pharmakon (http://www.pharmakondigital.com/) e do novo site da FAPOL (www.fapol.org/pt).
 
Finalizo essa resenha com as palavras que circularam pelas redes:

“Neste Enapol pudemos tratar de elucidar, a partir da experiência dos praticantes, como se verifica a incidência das imagens e como se introduzem e fazem curto-circuito no campo da fala e da linguagem. Não se tratou de nos rendermos ao “Império das imagens” mas, de levá-lo em conta como sintoma. Para além da ilusão da transparência absoluta, há um mistério advindo do choque da palavra e do corpo que a psicanálise pode abordar. Nossa proposição foi avançarmos com o que há de vivo na psicanálise no século XXI”. 
 
Aproveito o convite do DR para deixar registrado meus parabéns a todas Comissões Organizadoras do VII Enapol. Nos vemos no X Congresso da AMP!

Por Isabel do Rêgo Barros Duarte

Em minhas primeiras participações em eventos da AMP, que começaram precocemente, eu tinha a ideia de que estava lá para alguns dias de aulas concentradas, que ouviria e anotaria muitas lições e sairia com um saber a mais. Hoje em dia ainda acho que saio com um saber a mais, mas de outra ordem. Mudando o método de presença nos eventos, especialmente os grandiosos como o ENAPOL, a atenção flutuante me ajuda a ir recolhendo do Encontro aqueles significantes que fazem ressoar as perguntas que já tenho sobre a teoria, sobre minha clínica e também minha análise.

Os efeitos do VII ENAPOL foram muitos para mim: o relato de uma intervenção que me faz pedir uma supervisão, uma voz cuja escuta me permite dar outro destino à transferência. Mas nada disso posso transmitir.

Gostaria aqui de compartilhar apenas dois efeitos de ressonância que esse encontro, tão profícuo, me gerou.
 
Um deles diz respeito a esta brilhante ideia que foram as mesas de conversação, que proporcionaram a muitos, como eu, a oportunidade de se debruçar com antecedência sobre um tema, para culminar com a discussão no dia do ENAPOL. Participei da conversação sobre o tema “Biopolítica e Novas Formas de Segregação”, com a coordenação de Lucíola Macedo. Particularmente, me interessou a ideia de que a organização do mundo tal como a conhecemos hoje, sem mestres e tendendo à homogeneização, tem suas consequências devastadoras, mas também oferece aos sujeitos maneiras diversificadas de estarem inseridos socialmente.
 
Foi costume play – representação de personagem a caráter-. Com esse exemplo, Henri Kaufmanner afirma que, pela fluidez de identificações atual, “psicóticos podem passear sem vergonha pelos diferentes roteiros oferecidos pelos mestres de nossa época”. Gustavo Stiglitz, na mesma linha, descreve o cosplay como um gancho da cultura ao qual diferentes sujeitos encontram como se enganchar, mas aponta para o impasse: como fazer laço para além da participação no grupo, onde multidão e solidão convivem em um mesmo evento?


Outra ressonância que queria trazer foi sobre meu próprio trabalho das mesas simultâneas. Tive o receio de não ter conseguido transmitir o que realmente queria, isto é, que as diferentes modalidades de organização familiar, inclusive a edipiana, procuram servir ao mesmo propósito: o de tamponar o furo da não relação sexual. Em oposição a isso, está a referência que Lacan nos dá em Alocução sobre as psicoses da criança sobre gente grande, isto é, aquele que pôde se haver com seu próprio furo, com o impossível da relação sexual. 

Quebrando a cabeça com isso para evitar cair numa idealização restritiva, eis que me deparo com a surpresa de escutar, no testemunho de passe de Marcus André Vieira, uma excelente maneira de entender a que se refere essa “gente grande” e vislumbrar como uma análise pode, longe de normalizar uma família, permitir que cada um possa se apropriar de seu ponto de furo, sem ter que carregar outros nas costas além do seu:

“(…) na lembrança éramos só meu pai e eu. Nós e a neblina daqueles sábados de inverno cedo pela manhã. Ele vinha do Rio para nos ver, zeloso na recém separação e talvez não tivesse achado muito a fazer na cidade. (…) Ali, porém, era ainda o entre-dois, nem família nem mundo, não mais pai e não ainda estranho. (…) Só muito depois vi o quanto nada naquilo tudo exigia melancolia. Um dia, com meu filho, esperando um ônibus, tive a certeza de que sua terra do nunca, nunca seria triste. Talvez tenha sido assim porque soube com ele naqueles tempos ficar quieto, apenas aproveitar, sem nada pedir à minha neblina. Sei que devo isso à minha análise. De fato, a verdade da melancolia nela se esfumaçou quando em tantas cenas e momentos foi sendo recortado a cada vez o ponto em torno do qual tudo girava, tudo acontecia”.

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