3 de abril de 2014

LACAN COTIDIANO N. 350 - PORTUGUÊS


Quarta-feira, 06 de novembro de 2013 - 12h00 [GMT + 1]    
NO 350
Eu não teria perdido um Seminário por nada no mundo — Philippe Sollers
Ganharemos pois não temos outra escolha — Agnès Aflalo
www.lacanquotidien.fr
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- Exposições– 

«A tribo de Lulu e seus amigos. Todos aRtistas!»

por Mariana Alba de Luna
Até o dia 15 de novembro acontece a nova exposição de trabalhos de crianças autistas organizado por "La Main à l'oreille » no centro Paul Valeyre ( prefeitura do nono distrito de Paris).
Você está convidado no dia 15 de novembro as 18h para a abertura da exposição, e as 19 h , para assistir a projeção de dois filmes feitos por pais  aderentes da associação de seus filhos Sua normalidade, de Eugénie Bourdeau (26 min.) sobre sua filha Lucile Notin-Bourdeau e um curta magnífico de Marc Langlois, responsável por l'Antenne LaMàO-Aquitaine: olhares de um pai. Os artistas e os organizadores esperam por vocês.

Os novos artistas:

- Lucile Notin-Bourdeau, 11 anos, é a homenageada com sua « Tribo », com personagens surpreendentes saindo direto « da vida verdadeira de seus sonhos », como ela diz. Ela trabalha exclusivamente com uma caneta preta e pode traçar centenas de desenhos por semana os abandonando no chão. Seus últimos trabalhos viram surgir um pequeno toque vermelho, no exato momento onde a chegada da primavera veio bater em sua porta de jovem menina. Seu estilo próprio é o de questionar o que vem do movimento, da mudança e dos afetos que a rodeia. Seus croquis são um convite a um outro olhar que não te deixa indiferente e até mesmo te deixa maravilhado. Sua mãe acolheu sua invenção e soube transformar em um laço social e um convite ao encontro do mundo artístico de sua filha : https://www.facebook.com/LucileNotin/timeline
Lucile expõe igualmente todo o mês de novembro no centro de animação de Reuilly: «na vida verdadeira do meu sonho», rua Antoine Julien Hénard, número 12, Paris 12 distrito, metrô: Montgallet.
- Pipoye, 14 anos, artista autodidata marroquino inigualável, evolui no digital painting ou arte numérica. Sua inspiração, ele a obtém do cotidiano da vida real mas também surfando na internet, absorvendo os clichês da cidade e se alimentando de quadros de mestres. Ele gosta de Klimt, Paul Klee, Kandisky, Gaudi, Sonia Delaunay, Takashi Murakami, etc.

- Julia Ermakova, responsável pela Antenne LaMàO-Russie, nos enviou alguns exemplares dos maravilhosos trabalhos de crianças russas autistas expostos atualmente em Saint Petersbourg em uma exposição intitulada "superfície". Várias pessoas, dentre as quais nossos colegas Irina Soboleva e Mikhail Sobolev, e a galerista Liza Sabina, trabalharam para que essa exposição aconteça no "Loft Projet Etagi". http://www.loftprojectetagi.ru/en/events/surface/

E novos trabalhos de crianças, de toda parte da França e de outros lugares- já presentes na exposição do ano passado: Martin, Enzo, Gilchirst, Marc, Omar, Zoé, Luna-Moon, Patricia, Nabil, Nandy, Pétros, Mariana, Antsa, Tristan, Olivier, Kévin, Yannick, Jihane, Pierre et Andy, ainsi que les enfants de l'Antenne 110, de la DemiLune, d'Aubervilliers, etc.

Esperamos contar com vocês! A entrada é gratuita com reserva. Para a projeção, inscrições on-line:

«A tribo de Lulu e seus amigos. Todos aRtistas !»
Centro Paul Valeyre, 24, rue Rochechouart, 75009 Paris, Metro Cadet
De segunda a sexta das 9h30 às 22h30 / sábados das 9h30 às 19h00.












Quando o curador de uma Bienal acredita ser encarregado de elevar nossas almas

por Jean-Paul Paccioni



55ª Bienal de Arte de Veneza. O curador, Massimiliano Gioni tomou extremo cuidado com relação à exaltação e elevação de nossas almas, que eu temo não ser capaz de me manter neste alto nível de espiritualidade. Felizmente, o catálogo permite-me ler as notícias coladas nas paredes da exposição. Sou novamente conduzido a cantar as palavras "transcendência", "transcendental", "alma", "energia cósmica", "impulso eterno enciclopédico da humanidade" e isso seria apenas um sinal de má vontade se eu recaísse ao meu estado habitual. A arte contemporânea não pode deixar de encontrar aí uma nova via.
O presidente da Bienal, Paolo Baratta, se afilia a Harald Szeemann, o curador das riquíssimas Bienais de 1999 (Dapertutto) e de  2001 (Platea dell'Umanità). Entretanto, ele não pode se encontrar no que de Szeemann  exalava como sua obsessão ou estilo, a "complexidade" (Nathalie Heinich Harald Szeemann, Um caso singular p. 52). É em direção às grandes simplificações que a exposição atual nos leva. Chocante o suficiente, as contabilidades da Bienal ainda não foram prestadas. O número de Belas Artes de julho intitulado "desencanto para a arte contemporânea, mas advento de uma arte temporal e transexual". Faz-se notar  evidentemente que a exposição "tornou-se um lugar de encontro mundano para os novos ricos".
O edifício enciclopédico

A 55ª Bienal foi intitulada "Il Palazzo Enciclopédico", o edifício  enciclopédico. Refere-se a Marino Auriti (1891-1980), um fabricante de automóveis forçado a fugir da Itália fascista e, finalmente, levado a emigrar para os EUA. Aposentado na década de cinquenta, ele construiu em sua garagem uma maquete de um enorme museu imaginário "O Palácio Enciclopédico do Mundo": projeto de um edifício de 136 andares destinado a apresentar todas as conquistas da humanidade, da roda ao satélite. Os arcos que rodeiam o edifício estão decorados com grandes exortações morais. A maquete foi apresentada somente duas vezes, permanecendo durante décadas em um depósito. O catálogo vê aí um testemunho do "impulso eterno enciclopédico da humanidade: abraçar e conter todo o universo e o colocar em ordem de acordo com uma forma". Massimiliano Gioni se apoia na tentativa de Auriti para pensar o projeto dessa Bienal: esta deve ser "uma investigação sobre as formas em que as imagens são usadas para organizar o conhecimento e para moldar a nossa experiência do mundo", ela deve "promover uma condição que todos nós compartilhamos e que é a de sermos nós mesmos mídia, de sermos condutores de imagens, de sermos inclusive possuídos por imagens".
Parte superior do formulário
Estas fórmulas têm a vantagem de serem gerais e imprecisas,  elas permitem a homogeneização da diversidade da pesquisa contemporânea, paradoxalmente fechando a Bienal num jugo muito pesado. Ao entrar no pavilhão central de Giardini, os visitantes são imediatamente confrontados com o Livro Vermelho de Carl Jung, em seguida, grandes painéis de Rudolf Steiner. O pampsiquismo junguiano, a espiritualidade antroposófica, serão capazes de servir de garantia interpretativa e modelo da exposição de todas as obras.










Eufemismo em Veneza

Em certo sentido, esta Bienal conquista um feito – o de apresentar em grande parte uma exposição daquilo que Jean Dubuffet chamou de "arte bruta". Organizar este tipo de evento encontra, ao que parece, grandes dificuldades na Itália. Mas a Bienal não é apresentada como tal, e é mais uma eufemização dessa arte a qual assistimos (no sentido preciso de Dumarsais para quem o eufemismo "é uma figura pela qual disfarçamos idéias desagradáveis, odiosas ou tristes, sob nomes que não são os nomes próprios dessas idéias", Tropes, II, 15).

Obras de Augustin Lesage, de Morton Bartllet ou de  Drossos P. Skyllas fazem vizinhança com quadros de uma comunidade Quaker. Trabalhos gráficos do sudeste da Ásia e da Melanésia compilados por um etnólogo vienense (cujas bases teóricas puderam tender ao racismo), ao lado do ex-voto. Podemos ver banners de vodu haitiano ou pinturas tântricas ao lado de vídeos contemporâneos... No entanto, a diversidade e a natureza outsider de muitas obras não nos dão a impressão de criatividade e de vida que nos dava a coleção de André Breton, mas sim de uma uniformização geral usada por um olhar ingênua e fortemente espirituais. Muito felizmente, a natureza opressiva de delírios psicóticos presentes em certos objetos, a totalização sem lacunas que tentam , causam um sentimento valioso  de asfixia. Este mal-estar , pelo menos, nos leva ao real, goma o que esta concepção de arte pode ter atraído,  mesmo se não há nenhum incentivo para permanecer na exposição.
Mas eu tenho um espírito muito sofrido. Os artistas da arte bruta que são apresentados, felizmente , estão em sua  maioria deles já mortos. Não há o risco que eles nos incomodem por razões impróprias, eles não vão nos incomodar com a sua individualidade e singularidade, nem pelo seu sofrimento. Eles realizam uma função vaga e generalizada de "mediadores de imagens".
O mafioso e o comerciante que deseja proteger suas economias às flutuações do mercado podem ficar seguros: todos os artistas presentes realizaram uma função transcendental subtraídos dos caprichos da conjuntura. Arthur Bispo do Rosário passou um longo tempo da sua vida em hospital psiquiátrico, mas suas obras, colocadas em um cofre, não verão sua cota diminuir.
Que benefício para a arte contemporânea! Ele vai encontrar o seu fim absoluto. O casamento da arte e do mercado poderão ser santificados em uma união sustentável e harmoniosa. O artista não tem que questionar radicalmente a nossa relação com o mundo, não tem que trabalhar o material e as representações, a fim de fazer surgir o que não se tinha visto ou ouvido até












agora. Ele não tem que preocupar nem animar nossos espíritos. Esses são valores eternos e imutáveis que ele deve fazer aparecer. É inútil estar atento à complexidade e à ambiguidade da história humana. Uma obra de arte bruta, se a reduzimos a um objeto brega, provoca um êxtase adequado. Essa lição deve ser ouvida por todos os artistas contemporâneos.

                

Corpo e alma
Para realizar este projeto, o catálogo oferece uma seleção de fórmulas finais e eternas que, se elas forem simplesmente tomadas ao pé da letra, se não forem cuidadosamente estudadas, contextualizadas, diferenciadas de outras que parecem próximas, entorpecerão definitivamente o espírito. É precisamente na sua recusa imediata que poderemos ver aparecer o que  desempenha de maneira viva na arte, e a espiritualidade que pretende defender essa Bienal. Mas nós falhamos novamente, nos deixamos conduzir por seus inventores, "O Edifício Enciclopédico". Releiamos as notícias que pontuam a exposição.










 James Lee Byars
 
 


As "pinturas tântricas de autores anônimos" apresentam um "lingam" em uma forma oval no centro da tela. Para o "guia rápido" da exposição, ela é "a representação mais abrangente visível de Deus, a forma transcendental da falta de forma, o lugar onde os opostos se fundem em um todo, refletindo a natureza onipresente e infinita da divindade. "Confrontado com estrelas de mármore dourado de James Lee Byars, o mesmo guia nos diz que "a morte é a dissolução do ego que leva à Unidade transcendente".
Os esboços de Lin Xue, traçados em bambu, são para ele "as transcrições mediúnicas do misterioso acúmulo de energias que governa o mundo natural". Nas pinturas violentamente expressionistas de Maria Lassnig, o guia ainda consegue encontrar "como um devaneio (em francês no texto) religioso". Ele relata que as criações de Camille Henrot são de acordo com a artista, "uma imagem prismática do reino do pensamento." A sala das esculturas de Pawel Althamer parecem uma versão cinza e suave das "obras" do "Plasticinateur". Os venezianos que estão representados podem, no entanto, ler para Althamer: "Perceber que o corpo é apenas um veículo da alma é uma importante conquista. Gunther von Hagens se contentava em apenas resgatar corpos condenados à morte na China. Finalmente, para admirar esta maravilha de uma nova deslocalização: são os venezianos vivos que se desapossaram de seus corpos para benefício de sua "alma".
Fischli et Weiss. Une œuvre de la série « Plötzlich diese Übersicht » présente à la Biennale de Venise et réfractaire à son jargon pseudo-spiritualiste.
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- Trauma –

A mulher com zumbidoUm mau encontro com o real

por Gérard Mallassagne

Através do aconselhamento de sua psiquiatra, recebo Laurence, que sofre há algum tempo de um medo fóbico: ter um gesto violento em direção à sua filha. Evita ficar sozinha com ela e se proíbe de utilizar utensílios de cozinha cortantes em sua presença. Esse medo é tão intenso que ela chegou a pedir à sua psiquiatra que a internasse; "Eu tenho medo de ficar louca". É essa demanda que induz o endereçamento à análise. Ela toma um leve medicamento para crises de angústia recorrentes.

«Traumatizada por essa história»

Associa esse medo ao discurso parental a respeito de uma tia paterna, etiquetada como louca, que teve várias internações psiquiátricas e cuja filha, prima da paciente, viveu por algum tempo com ela. As pessoas próximas temiam que ela fizesse algum mal à sua filha. O pai comentava sobre as visitas a sua irmã com um "assim não da...", falávamos dessa tia somente com meias palavras e ela constitui o que não se deve evocar: um segredo de família.

Sozinha, enfiada nessa vida sob as injunções superegóicas do pai, Laurence se casou com um "gentil bandido" vindo do subúrbio, que consumia haxixe e gostava de tudo que era proibido. Ele não tinha a aprovação do pai, mas ela não cedeu em seu desejo. Sua vida se tornou insuportável, fatos diversos, a atualidade, relatando atos de violência, de assassinatos, causando demandas repetidas sobre o modo: "Como podemos explicar esse crime... e será que um dia eu não vou fazer a mesma coisa: me tornar uma assassina?"

Desde as primeiras sessões, muito angustiada, diz não querer fazer análise por medo de descobrir coisas sobre as quais ela não queria nada saber e de fazer bobagem... o pior. Ela pede ao analista uma garantia de que não se tornará uma assassina. Pede de lhe demonstre seu saber, que faça limite ao seu gozo.

Filha mais velha de prole de dois, relata uma infância entre um pai muito autoritário, que os colocava em vigilância contra tudo, regulamentava a vida cotidiana e lhes interditava todo prazer que julgasse inútil: "O bom tempo se paga um dia... crescemos tendo medo de tudo". A mãe, depressiva crônica, com freqüência acamada, desaprovava o autoritarismo de seu marido, porém em vão. Trabalho, austeridade e medo do pai foram os significantes–mestres dessa educação "a lá" Schreber.

Na conferência XVII, "O sentido dos sintomas", S. Freud situa o traumatismo como um ponto de fixação sob cada sintoma neurótico1. Laurence enuncia no modo freudiano: «Eu sou traumatizada por essa história».

O nó traumático

As sessões pontuadas de demandas colocam em evidência a dificuldade dos significantes para dar basta à angústia, fazer limite ao gozo. Sobre um modo repetitivo, ela convoca o analista a responder a essa incessante pergunta: «Assegure-me de que eu não vou ficar louca». Presa numa identificação a um S1, "louca-como-minha-tia", Laurence interroga o analista para obter uma resposta, a qual percebe rapidamente o pouco de certeza.
A fobia, medo de matar sua filha, permite colocar distância da angústia através do viés de uma matriz com a construção: «Se eu deixar essa matriz, eu tenho medo de ficar louca... e de fazer bobagem...»; a fobia como substituto da fantasia. Laurence iniciou rituais contra fóbicos que lhe permitem verificar que ela se mantém dona da situação. Se a psicanálise lhe retira essa matriz, não iria ela fazer bobagem, portanto, ficar louca?

Porém, ela confia no analista, segue seu trabalho de elaboração e se submete à regra da associação livre. As sessões, o desenvolvimento da cadeia significante, permitirão uma desconstrução da fobia com apaziguamento notório da angústia e a construção do que é para ela o verdadeiro nó traumático: sua relação com a língua. A fobia desaparece. Laurence testemunha uma leveza muito importante, se autorizando a "momentos de bem estar", sua aparência física o testemunha.

Aparece um primeiro sonho. Ela chega ao consultório do analista, ele é outro, e diz a ela: «você já falou o suficiente do seu pai, acabou, você deve passar para uma outra coisa». É o momento agora, diz ela, de passar para uma outra coisa. Sonho de entrada em análise?

Um segundo sonho. Ela critica seu marido com relação ao consumo excessivo de tabaco, ele aparece para ela nesse sonho com seu grande charuto. O comentário diz respeito a seu desejo de que seu marido pare de fumar. É na sessão seguinte que ela diz ter associado ao «grande charuto do marido» uma conotação sexual. «É o momento de deixar de ser a filhinha do papai para me tornar uma mulher».

"Freud distingue três fatores que determinam o que ele chama de chances para a psicoterapia analítica: o traumatismo, as pulsões e a modificação do eu. Ele se detém especialmente na força da pulsão e no que lhe atribui de poder irresistível – o termo é dele – na determinação da doença. O que Freud pontua aí é a incidência do gozo, nos termos que fazemos uso hoje", sublinha Jacques-Alain Miller2.

O aparecimento de um fenômeno corporal

Trovões em um céu aparentemente sereno, surge um fenômeno corporal; um zumbido invade a vida de Laurence. Ela inicia consultas médicas e  outras, acupuntura, osteopatia, kinesioterapia. Um médico chega até a lhe dizer que certos sujeitos, não suportando o zumbido, escolhem o suicídio. Laurence prevê o pior. E a busca incessante de respostas recomeça; o zumbido é o preço a ser pago pelo bem estar que ela experimentou, confirmando a fala do pai: «Os bons tempos serão pagos um dia».
O trabalho analítico fica abalado. Não seria melhor então que ela o interrompesse? O tratamento favoreceu o desencadeamento do zumbido, sintoma do qual o pai sofre há muitos anos? Trata-se de uma identificação imaginária a seu pai?
O zumbido invadiu a vida psíquica do sujeito, que procura resposta para o que lhe faz enigma; seria o zumbido somático, tensão no nível das cervicais, efeito de queda de certas frequencias auditivas? Seria psíquico? Talvez os dois? Laurence solicita respostas dos médicos, do analista: ela pode esperar cura de seu zumbido ou deverá suportar esse assobio em sua orelha pelo resto da vida?

O trabalho analítico produz sentido ao mesmo tempo que alimenta o gozo. Na invasão de gozo, o zumbido torna-se obsessivo, "Eu o escuto sem parada... ele não cessa de assobiar", o questionamento incessante, sessão após sessão, "Será que eu vou me livrar dele?" e uma aparente inércia dialética, me fizeram colocar a questão de uma estrutura psicótica.

Diante desse novo mau encontro com o real, a posição do analista é fazê-la escutar que ele acredita no inconsciente, nos efeitos do inconsciente.
A resposta de um médico, especialista em zumbidos, será decisiva. Ele explica a ocorrência frequente de zumbidos em paralelo a uma deficiência auditiva, mas enfatiza que é ela quem está subindo o som e que aí, então, medicamente, não pode fazer nada, "cabe a você abaixar o som, vejo-a de novo em um ano", diz ele.

Laurence sai chocada e com raiva da consulta, corre ao consultório do analista para dizer: "Cabe a mim abaixar o som, mas então eu aqui sirvo realmente para alguma coisa". Isso faz interpretação.
As sessões continuam, Laurence confia no dispositivo para continuar o seu trabalho de elaboração, sua posição subjetiva se modifica. A interpretação médica sustenta o "acreditar nisso" e reintroduz o sujeito na cadeia significante, resultando em uma diminuição do acontecimento de corpo.

A iteração do sintoma implica, ou ao menos é "referente a um semel factível (...) um evento único que tem valor de traumatismo. Lacan nos incita precisamente a cernir além da fantasia esse semel factível, que é denominado na clínica traumatismo, o encontro com o gozo. É isso, aliás que faz a diferença entre o gozo no sentido de Lacan e a libido freudiana, o gozo deve ser relacionado em todos os casos a um encontro, a um semel factível"3. Lacan compreende desde o inicio o recalque como o que restou... é um "inconsciente traumático" são significantes que não puderam significar. "Estes são os significantes do trauma que permaneceram no non-sense, cujo sentido ficou bloqueado (...). O tratamento consiste portanto em desbloquear o sentido".4

Notas:
1 - Freud S., Conférences d'introduction à la psychanalyse, Paris, Gallimard, 1999, p. 329 à 348.
2 - Miller J.-A., «L'Être et l'Un», Cours de l'orientation lacanienne, cours du 6 avril 2011.
3  - Ibid., cours du 4 mai 2011.
4  - Ibid., cours du 15 juin 2011.
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- Homenagem -

Elektra, de Patrice Chéreau

por Valentine Dechambre
Patrice Chéreau cuidou, antes de nos deixar em sete de outubro último, de colocar na cavidade de nossos ouvidos uma música memorável, uma canção incandescente, uma canção chamada desejo. O de Elektra1, que reviveu a letra poética e musical neste verão em Aix-en-Provence dirigindo no palco a deslumbrante soprano Evelyn Herlitszius.

"Masterpiece!", exclamou o público e uma imprensa unânime pois isso é o que acontece quando você tem a força de um desejo fora do comum: imediatamente você saúda essa vibração essencial.








O Desejo, Chéreau o encarnava, dando incansavelmente de seu corpo e de sua presença em suas criações e direções de atores, até as últimas horas de sua vida que sabia contadas. Tal como sua última heroína, Elektra, onde fez a passadora de uma obra que lhe sobreviverá para sempre.

Em sua encenação da ópera de Richard Strauss, contemporâneo do Erwartung, de Schoenberg, P. Chéreau acentua a dimensão do desejo feminino requisitada pelo poeta Hofmannsthal (1909), relendo a tragédia grega à luz de Hamlet e aulas de Freud sobre a sexualidade feminina.













Se o texto de Sófocles faz de Elektra a voz vingativa de um pai ultrajado, é o desejo feminino violado pelo pai que Hugo von Hofmannsthal coloca no centro da sua leitura da tragédia. Quanto ao compositor Richard Strauss, deslumbrado com o texto do poeta, vai alojar na voz de Elektra essa vertigem sonora ininterrupta que dá conta do gozo de uma mulher submergida por seu próprio canto.

No programa, distribuído no Festival de Aix-en-Provence, podemos ler nos objetivos de P. Chéreau os segredos de sua encenação audaciosa, e é no final de seu texto de apresentação, quando evoca essa palavra de Elektra, dirigida a seu irmão Orestes, "mas - diz Chéreau - tradicionalmente cortada na representação".

Aqui está a palavra de Elektra, resgatada e restaurada por Chéreau em sua apresentação da obra: "Você não acredita que, quando eu tinha prazer em meu corpo, suas agonias (ela fala aqui de seu pai Agamenon) não ecoaram na minha cama? Os mortos são ciumentos e, como um noivo, ele me enviou o ódio nos olhos encovados. Assim, sempre fui profetisa e apenas tirou de mim, de meu corpo, maldição e desespero".
Em outras palavras, P. Chéreau enfatiza fortemente em sua encenação esta vertente da misoginia de um pai em relação ao erotismo feminino, não suportando nem o prazer de sua filha nem o de sua esposa infiel, como o ghost cuja palavra de ódio envenenou a orelha de Hamlet, como Lacan aponta no Seminário 62.









Para P. Chéreau "Elektra é oprimida pelo pai dominador". Mas se Chéreau enfatiza em sua encenação o impossível de suportar desse pai, sua direção faz pouco a pouco deslizar, para além da ficção, a dor existencial de Elektra ao êxtase erótico, onde dança e canto se juntam em uma longa convulsão de um corpo, onde é a vida que se afirma até o excesso. A cenografia sublime assinada por Richard Peduzzi, perfeitamente silenciosa em seus altos muros e seus volumes desenhados, enfatiza e reverbera o início desse solo final do corpo desejado por Chéreau.

O olhar que tem Chéreau sobre "esse pai dominador" soma-se à proposição de J.-A. Miller sobre outra peça de teatro em Toulouse, ao lado de uma escritora, convidando "a sair do reino do pai": "O pai, como se desembaraçar? É possível se livrar dele? Esta é a questão constante de  Lacan". "O pai, essa ferida, teve seu tempo, encontra-se obsoleto (...) o Édipo é patogênico".3

Não nos esqueceremos desse extraordinário momento de graça musical, destacado com infinita delicadeza por Chéreau: a ternura extraordinária entre Elektra e sua mãe Clitemnestra. Escutemos P. Chéreau: "Strauss nos diz que estas duas mulheres não estão cercadas pelo ódio, elas são mãe e filha, precisam falar uma com a outra e que a questão da sexualidade está sem dúvida no centro de sua violência".

Patrice Chéreau, caçador de ghosts, passador de palavras e do desejo feminino, caro aos nossos corações, nos fará muita falta.






1Elektra de Richard
Strauss,  Tragédie en un acte. Livret de H. von Hofmannsthal, direction musicale, Eso-Pekka Salonen,  Mise en scène P. Chéreau, Décors, R. Peduzzi, Festival d'Aix en Provence, juillet 2013 au Grand Théâtre de Provence
2 Lacan J., Le Séminaire, Livre VI, Le désir et son interprétation, Ed. de La Martinière, Le champ freudien, texte établi par J.-A. Miller, Juin 2013
3 Miller J.-A.,  « Nous n'en pouvons plus du père »,  sur le Site de la Règle du Jeu.

Fragmentos escolhidos e estabelecidos por Christiane Alberti da intervenção de J.-A. Miller, no sábado 20 de abril, em seminários, leituras e projeções realizadas por Christine Angot no Teatro Sorano, em Toulouse de quinta-feira 18 a domingo 21 de abril, 2013.

PETIÇÃO

Apelo dos psicanalistas aos parlamentares da Bélgica

Assinar a petição / de petitie ondertekenen

L'ensemble des Ecoles, Sociétés et Associations psychanalytiques de Belgique – FABEP – lance aujourd'hui un
APPEL DES PSYCHANALYSTES AUX PARLEMENTAIRES
de BELGIQUE

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Tradução: Veridiana Maruccio
Revisão e diagramação: Maria do Carmo Dias Batista
Comunicação: Maria Cristina Maia Fernandes 

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