28 de enero de 2014

[EBP-Veredas] LACAN COTIDIANO N. 363 - PORTUGUÊS‏

Terça-feira, 07 de dezembro de 2013 -17h [GMT + 1]
Número363
Eu não teria perdido um Seminário por nadano mundo— Philippe Sollers
Nósganharemos porque não temos escolha — AgnèsAflalo
-  Psicanálise: Especial Bélgica -

O direitoàingerência dos psicanalistas
Éric Laurent na Universidade de St Louis*
Bruxelas, 10 de dezembro de 2013
 
PatriciaBosquin-Caroz
Com o apoio de um primeiro fórum organizado em outubro de 2013,em Bruxelas, pelas Associações francófonas e neerlandófonas do Campo Freudiano, o combate dos psicanalistas contra um projeto de lei que assimila e reduz a psicanálise a umaespecialização da psicoterapia, pôde ganhar forma e corpo. A interlocuçãocom os parlamentares encarregados da regulamentação da saúde mental se intensificou, o primeiro número doFórum dos psicanalistas foi-lhes enviado e largamente difundido, e depoisosegundo. Nossa mobilizaçãofoiem seguidaretransmitida pelos representantes das diferentes associações analíticas belgas, reunidas em uma federação, a FABEP, queacabou marcandosua adesão ao projeto de uma petiçãoendereçada aos deputados concernidos, que recolheumais de 4000 assinaturas. Nossasreivindicações eram explícitas: queríamos que a psicanálise fosse reconhecida como uma disciplinaautônoma,o que finalmentefoi prometido pela ministra da saúde, por ocasiãode um  comunicadonamídia, mas atualmentelonge de estar garantido.
Nesse mesmo período, a divergênciaa esse respeito que opunha freudianos e lacanianos ia se cristalizar e, com ela, a questãorelativaà diferença entre a psicanálise e a psicoterapiatornando-secada vez maisardente. A partir disso,impôs-se umacontecimentoepistêmico destinadoaafiar nossos argumentos e convencer a opinião dautilidade pública da psicanálise, de sua diferençacom relação à psicoterapia e de sua necessária posição de extraterritorialidadequantoaqualquer regulamentação.
Graçasa uma recente colaboração daACF-Bélgicacoma « Rede interdisciplinaridade e sociedade » da Universidade de St. Louis, Éric Laurent foiconvidadoaproferir uma conferênciaintitulada: «A psicanálise não é uma psicoterapia, mas…». Umamesa redonda reunindo representantes das faculdades de direito e de psicologia de duas Universidades de Bruxelas (a Universidade Livre de Bruxelas e a Universidade de St. Louis), psicanalistas de nosso campo assimcomoaquelesque pertencem aoutras associações ou escolas analíticas belgas permitiu animar a discussãocom um públicobastante atento (mais de 300 pessoas). Umanoite quese mostrouinstrutiva e queconseguiu situar a espinhosa questão da extraterritorialidade da psicanálise emrelação auma leique pretende regulamentar o conjunto das práticas psi.
A posição extraterritorial da psicanálise não implica que nãoesteja concernida peladimensão terapêutica, mas ela se apreende de modo diferenteconformeseja provenienteda psicoterapia ou da psicanálise. Quantoaesse termo « extraterritorial », Gil Caroz, em uma intervençãoem um correio da ACF-B, prefere utilizar a expressão«extimidade» que nos introduz, precisou Éric Laurent, em uma nova topologia do campo psi.
Éric Laurent tomou como ponto de partidaessaseparação dos psicanalistas entre pureza do método psicanalítico, de um lado, e a psicanálise como terapia, de outro, lembrando que éramosos depositários de uma tensãoestabelecida por Freud entre essas duas tendências. Freud temia que a terapêuticaviesseadestruir a ciência. Lacan também ficava de sobreavisocontrao furor de tudo curar prevenindo-nosquanto aorisco ligado à ritualização da práticaexcessivamente colada à aplicação rígida do método. Entretanto, destacava Éric Laurent, Lacan, em seu texto « Variantes dotratamentopadrão », debochava da posição de certos psicanalistas que se mantinhamapartados do desejo de curar, uma vez que em psicanálise trata-se « de curaro sujeito das ilusões queo afastam docaminho de seu desejo ». Efetivamente a questão se coloca: curar de quê? Por outro lado, Lacan evocavaa cura quandoestipulava que ela advémporacréscimo. Só que, em psicanálise, trata-se de curardecifrandoo sentido do sintoma e, desta forma, devolvendo ao desejo o seu lugar; acuranão diz respeito ao « para todos », mas ao um por um. Como tal ela se afastaria de todo conformismo social ao qual tenderia a psicoterapia edependeria da psicanálise pura. « A dificuldade de situar olugar da curaem nosso campoé uma questão de psicanálise pura. Pode-se dizer que o exame proposto por Lacan acerca dos resultados do tratamento psicanalíticolevadoao seu términopelaexperiência do passe é ummodo de responder essa questão de maneira qualificada ». E Éric Laurent prossegue: « É por isso que Lacan, no momentoemque funda suaEscola, em seu Ato de fundação (1967), colocaemrelevo a diferença entrea questão da cura como tal, no campo da psicanálise pura e os efeitos de obscurantismo que produz a psicoterapia, quepretende colar-seàsnecessidades dahigiene mental ». Ele nos lembrou a desconfiança de Lacan quanto aotema das práticas terapêuticas que colocamimperativos de conformidade socialno primeiro plano e as consequências que decorrem disso: « conformismo da intenção, barbarismo da doutrina, regressãocompletaa um psicologismo puro e simples e oessencial mal compensado pela promoção de um clericato ».
Fazendo-se leitor de Lacan e destacandocomclarezao queentão se anunciava como uma profecia, Éric Laurent afirmou,através de sua demonstração, que de certo modoo clericatonão passava de « umavariante da burocracia de experts terapeutas assim destacados ». Extraindodo campo das psicoterapias a questão da cura, mostrou-acomo uma autêntica questão para Lacan, e mesmo um tormento sobreo qual ele não cedeu,assimcomo os psicanalistas lacanianos de hoje.
Uma vez que tomoucomoponto de partida uma oposição entre psicoterapia e psicanálise, o « mas » que Éric Laurent acrescentouao títulonão nos levaa considerar essa distinçãocom prudência – «sim, mas ainda assim» –, satisfazendoos adeptos dos compromissos, mas aconsiderarsobretudo como uma distinção radical, uma vez que a cura em psicanálise nãoprovém da norma do para todos, mas dosingular fora da norma. Deste modo, elasó seria, portanto,consideradaseriamente na psicanálise.
Éric Laurent considerouentão o campo psi como uma topologia particularcom pelomenos dois lados: olado psicanálise aplicada e o lado psicoterapia analítica, que comporta uma variedade de psicoterapias relacionais. Paracertos psicanalistas, a oposiçãoé radical, o queos conduza não se ocupar do campo das psicoterapias;outros, pelo contrário, estariam prestesadeixar-seengolir por esse campo ao preço de comprometimentos diversos. A posição defendida por Éric Laurent éoutra. Pelo contrário, precisava ele, éa partir dessa posição extraterritorial, que nósdevemos nos preocupar com o campo psi e até exercer ali nosso direito à ingerência!
Instruído peloestudo doOutro contemporâneocom o qual o sujeito moderno deve se haver, eleveio a deduzir a posição quecabe ao psicanalistano mundo de hoje. A esserespeito, ele nos lembrava da distinção operada por Michel Foucault entre a sociedade organizada pelas leis e a sociedade organizada por normas. « No mundo da lei há umaclara diferenciação entre odentro e ofora. A figura da lei é acompanhada da definição do quenãoé ela: as margens e ofora-da-lei.(…) Na sociedade das normas, queé nosso regime contemporâneo, e que incluias leis que redefinem normas, o dentro e ofora se conjugam de talmodo que o sujeitonunca está dentrodas normas ao mesmotempo nunca está totalmentefora das normas ». Essa topologia da passagem do dentro aofora, do tipofaixa de Moebius,éútil, dizia ele, para definir o espaço doOutro contemporâneonoqual se deslocao sujeito « aomesmo tempo regulado por uma multiplicidade de normas, embaralhado por seu avesso e furadopor zonas de não-direito ou de não-lugar ». Neste mundo da multiplicação das normas, o psicanalistaéaquele que sabe que é a norma que criaa alter-norma e onão-lugar, e que éem nome desse não-lugar que elese autoriza a uma ingerênciano campo psi, tal como se pratica, emoutro domínio, o direito de ingerênciapara lutar contraas zonas de não-direito.
Alcançandooápice de sua proposta, Éric Laurent insistiu sobre a exigência ética da posição extraterritorial ou êxtima do psicanalista, que longe de ser uma posição de recuo ou de encolhimento, consistiriaem se preocupar como campo psi e mesmoemnele exercer seu direito de ingerência! Nãoa partir de um significante-mestre, como poderiareivindicar o poder médico, mas a partir de uma posição de facilitador. A ingerência de que se trata,de modo algum seria exercida a partir da ciência, mas a partir da lógica donão-todo. « E é a própria dificuldadeda definição de seulugar que permite ao psicanalista sentir-se responsávelpelos remanejamentos que se produzemno conjunto do campo, a cadavez que as normas sãorelançadas ». O psicanalista se autoriza, portanto,em nome do seu fora de lugar, a uma ingerênciano campo psi. A ingerência psicanalíticanão é,então,de ordemsuperegóica, elaé facilitadora e lembra «as consequências funestas daavaliação e da protocolização do mundo».
Essa posiçãoêxtima do psicanalistaétantomais necessário, que entramosemuma novafase de pareamento entre psicoterapia e necessidade de higiene mental, ao mesmo tempoem que o projeto classificatório do DSM, destinadoa organizar o campo clínicoem seuconjunto, espécie de software completo, deixou deser um denominador comum. « O fim do mundo regido por umsoftware dominante provocaa explosãoea concorrência dos paradigmas propondo-sea reger o campo psi… Cada uma de suas doutrinas podendo convir a burocracias particulares, inclusiveàs burocracias psi que se constituemna Europa, em diferentes modelos segundo a cultura de cada país… ». Mas isto não se dá sem resto, o que Éric Laurent denominouem uma fórmula forte, o real do abandono, compensado por uma crescentevigilância das populações deixadas à própria sorte. Considerandoesse real, os psissãohojeconvocadosa participar dessas burocracias que estabelecem um sistema de controle e de vigilância. Lembremo-nos, na Bélgica, dapublicação recente de um artigo da imprensa, emqueum dos defensores da psicoterapia psicanalítica se exprimia sem vacilar sobre a necessária colaboração do psicomo policial, o educador, …noâmbito de uma mesma comissão da saúde mental.
Portanto, com Éric Laurent, só podemos convidaros psicanalistasa se manteremnuma posiçãoêxtima«afim de lembrar aos sujeitos a singularidade de seu desejo, de seu fantasma, de seu sintoma. Cadaumé um poucodoente, descentrado, deslocado, excêntricoaqualquer categoria quepretendafixaro sujeito. Éestaex-sistência que se trata de valorizarem todo discurso».
 
* O texto da conferência de Éric Laurent será publicadonoForumdesPsychanalystes n°3
 
Alerta !!!
FórumRelâmpago de 19 de dezembroem Bruxelas
 
!! ALERTA !!
 A psicanálise novamente emperigo !!!
  
Apesarda
Petição dos psicanalistas aos parlamentares da Bélgicaquerecolheu
cerca de 5000 assinaturas,
 as declarações dasra.Onkelinx, Ministra
dos Assuntos sociais e da Saúde pública, em sua conferênciaàimprensa, confirmando que
a psicanálise nãoestaria concernidanessa lei,
as últimas provas do projeto de lei
regulamentandoas profissões de saúde mental, integramem seus comentários a seguinte menção:
 « o exercício da psicanálise e o porte do título de psicanalista não são
dacompetência da lei sobre a psicoterapia »,
 quedemonstra que
os poderes públicos ouvirama voz da psicanálise,
 nadaestá visivelmentegarantido.
FÓRUM Relâmpago
 
  Quinta-feira, 19 de dezembro de 2013 às 21 horas
16, ruaDefacqz, 1000 Bruxelas
 
Para informar e finalmenteexplicar
 
Que a psicanálise se distingue da psicoterapia 
Que a prática do psicanalistaé garantidapela prova
de sua formação e não por standards 
Que reduzir a autorização da prática da psicanáliseà obtenção de um diplomaé uma aberração psicanalítica
Que os charlatães querem fazercom que sua prática
seja garantida por uma lei
Que a liberdade de expressão implica

o direito à « associação livre » freudianaa salvo de qualquer de controle!

Publicação: O Fórum dos Psicanalistas
Apresentação do n°2
 
Yves Vanderveken
 


OFórum dos Psicanalistas: umaferramenta de combate

« Que se regulamente! » profereo genitor do narrador do livro de YannMoix:Naissance. Recente Prêmio Renaudot.
Descubramsob quais coordenadas essapremência não cessa de lhe aparecer. Precisamenteaqueles queatribuírama Jacques-Alain Miller a afirmação de que«nãoaguentamos mais o pai!».
O furor regulamentar frequentemente estácheio de bons sentimentos e de falsas evidências. A complexidadeé sempre negligenciada. A simplicidade, por sua vezéirmã de todos os desvios – e até de todos os extremismos. É que o combate das Luzes muitas vezes assume um aspecto inversoà formacomose apresenta.
Mas o erro da boa fé,é de todos o pior, imperdoável! (Lacan)
Deste modo, soba máscara da caça aos charlatães, eis quenãose abrirá a possibilidade, legalmente, por favor, de se ver reconhecido «psicoterapeuta de orientação psicanalítica» qualquertendoseguido uma formaçãoad hoc, mas nenhuma verdadeira em psicanálise! Sem análise pessoal longa conduzidaa seu termo lógico, validada como tal pelas referênciaspsicanalíticas e na qualeleteria informado regularmenteo lugarem queesse saber se aloja – as Escolas e Sociedade de psicanálise, e nãodiante de quaisquer comissões. Sem controle permanente de sua prática e formação contínua, infinita etc.! Verdadeiro rapto e empobrecimento da disciplina, lugar dodesvio possível à formação autêntica, portaaberta prestando-sea todas as imposturas.
O legislador quisassim. Eleo terá. Veremoso preço social disto, sem dúvida.
A psicanálise tem o maior respeito pela terapêutica. Toda psicanálise é terapêutica. Os testemunhos dos analisantes atestam isto. É preciso ainda que ela seja conduzida… por um psicanalista!
Em um sobressalto, resultado de nosso combate, o legislador parecequerer reservar umlugar «êxtimo» na leipara o «título e para o exercício da psicanálise ». Éo mínimo. Acompanharemos isto de perto.
O Fórum dos psicanalistaspretende instalar-sede forma duradoura na paisagem da opinião. Seuefeitoaí seráperceptível. Será difícil nãolevarissoem conta.

OFórum dos Psicanalistas n°2
 
OFórum dos psicanalistas éa nova publicaçãoimpressa aperiódica de nosso campo.
Elaéfruto do contexto de um projeto de lei emvias de ser votadopelo parlamento belga, visando «regulamentar as profissões da saúde mental». A Bélgicapadecedo que seapresenta como a linha geral das regulamentações europeias. Em sua versão inicial, essa lei visavasituar a psicanálise noquadro da « especialização da psicoterapia ». O Fórum dos psicanalistas constitui umaferramentano combate político e da opinião que os psicanalistas belgas dirigem contraisto. Ele nos permitiutornar nossa voz audível, apoiada pelos 5000 signatários da petição de apoio difundidaprincipalmenteemLacan Quotidiano. Mas operigonãofoi descartado, longedisso.
O Fórum dos psicanalistas se inscrevetambém, de maneiramaisampla, como uma publicação política de análise, de colocação em perspectiva e de posicionamentoem relação à forma contemporânea do mal estar na civilização e domodocomo a figura do mestre modernoprocuraresponder a isso.
Elediz respeitoao campo psi, mas se dirige sobretudo à opiniãoesclarecida e aos parlamentares belgas, e maisamplamente europeus. Ele publica textos tanto de psicanalistas quanto deintelectuais, de acadêmicos, de artistas ou de profissionais implicados de um modo ou de outro por essas questões. Esses textos emanam do CampoFreudianona orientação lacaniana e das outras tendências, tanto dolado francófono como doladoneerlandófono do país, e – Bruxelas exige – de toda a Europa.
O primeiro número foi distribuído gratuitamentecommais de 3500 exemplares.
Seu número 2 acaba de sair. Nele vocêsencontraramas mais vivas marcas do combate político atualmente em curso. Vocês poderão ler particularmenteos textos (qualificativos) de:
·        Anne Lysy sobrea análise profana,
·        Dominique Holvoet sobreo índice de democracia que constituias formas de regulamentação do mental,
·        Wim Galle sobreo campo clínico,
·        Monique Kusnierek, de Jean-Pierre Lebrun sobrea utilidade pública da psicanálise.
E também:
·        uma entrevista exclusivacom Jaco van Dormael, realizador dos célebres Toto le Héros e Huitième jour, premiados no festival de Cannes.
É que os artistas têmmuitas coisas a dizerno momentoem que, na Bélgica, estáigualmente emelaboração um projeto de lei que conduziriaalgumas comissões a dizer quemé artista e quem não é.
OFórum dos psicanalistasestáà vendaindividualmente. Mas éainda melhorassinar três números – umaformade assinatura e de apoio à publicação.
O próximo número incluirá, entre outros, o texto integral da conferência de Éric Laurent « A psicanálise nãoé uma psicoterapia, mas... », pronunciadana semana passadana Universidade Saint-Louis de Bruxelas, e  os debates quese seguirampor ocasião da mesa-redondacomos representantes das grandes Escolas, Sociedades e Associações psicanalíticas da Bélgica.
À vendapelo preço de 10 euros
por depósito bancáriona conta da
ACF-Belgique
068–0929750–32
IBAN : BE90 0680 9297 5032 – BIC : GKCCBEBB
Assinatura desdejá por 3 números: 25 euros
(Os números serãoenviadospor correio)
 
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Lacan Cotidiano
publicadopor navarin éditeur
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